Publicado 12 de Julho de 2013 - 5h01

iG - Fabiana Bonilha

Cedoc/RAC

iG - Fabiana Bonilha

Escrevo aqui como alguém que, literalmente, nunca viu na vida. Por eu já ter nascido cega, meu referencial acerca do que significa ver com os olhos foi criado por mim a partir do diálogo que estabeleço com quem enxerga. E neste diálogo, aprendi que, em alguns aspectos, a mente das pessoas cegas funciona de um jeito bem diferente, em relação à mente dos que vêem.

De modo empírico, suponho, sem nenhum embasamento científico, que o material que ocupa o pensamento dos cegos é substancialmente distinto daquilo que povoa o pensamento de quem vê, no que se refere à forma. Creio que, de maneira geral , os cegos pensam mais com palavras, enquanto que os videntes usam mais as imagens para representar mentalmente suas ideias.

Já ouvi dizer, aliás, que os cegos tendem a ser mais verborrágicos, o que, em Português claro, se traduz pela nossa fama em falarmos demais. Na verdade, as palavras sã nosso grande instrumento para conhecer e interpretar o mundo que nos cerca, e nos valemos delas até para pensar e sonhar.

Deve-se, entretanto, ressaltar que nós cegos formamos, sim, imagens em nosso pensamento, a partir de nossas experiências sensoriais. Pensamos em sons, em formas, em texturas, em cheiros e paladares, com base no que captamos por nossos quatro sentidos remanescentes. Além disso, não devo deixar de considerar que podemos pensar muito em música, e nossa mente musical é capaz de ser fértil para traduzir o que se passa em nosso redor. Mas ainda assim, aposto na hipótese de que nosso pensamento é predominantemente verbal.

Nosso modo de pensar influencia significativamente nosso modo de ser e agir. Cada tarefa cotidiana a ser realizada requer de nós que somos cegos uma boa dose de planejamento e de trabalho mental.

Nossa orientação e mobilidade, por exemplo, isto é, o modo como nos organizamos no espaço e nos movemos por ele, é um campo que nos distingue fundamentalmente de quem enxerga. Não somos capazes de andar livre e seguramente em uma casa que tenhamos visitado poucas vezes. O ambiente à nossa volta não se revela a nós à primeira vista, tal como acontece aos que enxergam. Precisamos estudá-lo e explorá-lo para criarmos nossas próprias referências e para desenharmos nosso próprio mapa mental.

Aliás, é este mapa mental a condição-chave para nos locomovermos. E o mapeamento que fazemos é diferente do desenho que se forma na mente de quem enxerga. Eles constroem na mente um mapa mais global e mais tridimensional do que o nosso. Aqueles que vêem, vêem em perspectiva, e isto os ajuda a compreender noções de distância e profundidade, às quais nós cegos ficamos alheios.

Na era do acelerado avanço tecnológico, tem surgido uma tendência na criação de equipamentos de tecnologia assistiva voltados para auxiliar nossa mobilidade. Estes vão desde bengalas que vibram, passando por maquetes táteis, até aplicativos para Smartphone que informam as direções no espaço. Todo este aparato é sem dúvida muito útil, desde que a concepção deles esteja alinhada com as estratégias reais utilizadas pelos cegos em seu dia-a-dia.

Nosso papel é o de manter um diálogo constante com os pesquisadores e desenvolvedores destas ideias, para que estas sejam concebidas de acordo com o referencial de quem é cego, e não de acordo com parâmetros visuais. Precisamos incentivá-los a atuar em parceria conosco, de modo que a tecnologia esteja a serviço dos usuários, e não os usuários a serviço da tecnologia.

Para tanto, entendo serem importantes os estudos sobre a cognição de quem não enxerga, como subsídio ao desenvolvimento destas ferramentas tecnológicas. Há, neste campo, muita pesquisa e debate pela frente!

* Fabiana Bonilha, Doutora em Música pela Unicamp, psicóloga, é cega congênita, e escreve semanalmente no E-Braille. E-mail: [email protected]