Publicado 12 de Julho de 2013 - 5h00

ig-cecílio

AAN

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Quanto às manifestações populares, admito ter, ainda, dúvidas a respeito delas. Coloco-me, porém, entre os muitos que se emocionaram ao ver multidões — praticamente em todo o Brasil — desfraldando a bandeira e cantando o hino nacional. Foi como que o plantio de uma semente para retomar o civismo e o amor à pátria que pareciam mortos. E não me incomodo com a sempre repetida afirmação do escritor Samuel Johson: “Patriotismo é o último refúgio dos canalhas.” Sim, canalhas há que se escondem sob o patriotismo, como também sob a capa de falsas éticas e honestidade. Patriotismo, no entanto, é virtude cívica, sentimento que alimenta a alma de um povo amante de sua terra.

Há poucos dias — em outro espaço — tentei refletir a respeito disso, sendo, porém, tomado de uma dúvida angustiante que me acompanha desde a juventude. Por que — eis a incômoda indagação que ainda faço — os “Pais da República” excluíram o Amor do dístico Ordem e Progresso? Inspirados pelo Positivismo de Auguste Comte, eles pretenderam criar uma república de inspiração positivista. Mas mutilaram o pensamento de Comte sei lá se de propósito, se por descuido. Pois a notável fundamentação do grande pensador marca toda uma filosofia de vida, em nível pessoal e, também universal.

Os republicanos sonegaram o fundamento do pensamento positivista que é exatamente o Amor. Pois, na realidade, o testamento de Comte tem profundas raízes espirituais Na bandeira, houve uma mutilação ao se colocar, como dístico, apenas “Ordem e Progresso”. Ora, a herança positivista, nas palavras de Comte, é afirmativa e clara: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por meta, representando as aspirações a uma sociedade justa, fraterna e progressista.”

Inquieto-me com isso desde a mocidade. E os tempos apenas deram mais solidez a tais inquietações. Pois, direcionados apenas por Ordem e Progresso, fomos levados às mais diversas formas de governos e de sistemas políticos que fracassaram. A Ordem teve e ainda tem as mais depreciativas significações: a ordem da truculência, a ordem da ditadura, a ordem dos tiranos, a ordem dos grupos políticos e econômicos. E o Progresso foi e continua sendo alcançado sem qualquer preocupação de ordem ética e social. Tivemos — e ainda temos, pairando no ar — o progresso do “rouba mas faz”, do “é corrupto, mas competente”. Se, no espírito cívico do povo brasileiro, tivesse sido incutido o princípio do Amor — que Comte colocou como essencial — a Ordem seria mais justa e o Progresso, mais solidário e humano. Duvidar disso é duvidar da própria vocação humana para o bem, o bom, o belo.

Não existe humanidade sem o espírito de solidariedade. E esta vai-se deteriorando de tal forma que nos aproximamos da quase total degeneração. O homem é gregário. Logo, será apenas um estúpido ou bárbaro se renunciar à fraternidade. E é o que estamos fazendo, o que nos leva, portanto, à estupidez e à barbárie. Ora, se nos despojarmos do direito e do dever da solidariedade — como está cada vez mais dramaticamente evidente — formaremos, tão somente, agrupamentos e massas de apenas um gênero superior de animais. Mas — mesmo que nos esqueçamos disso — a realidade é que o homem é um ser moral.

Referir-se, hoje, a Amor é ser alvo de zombarias. Sei disso e corro o risco. Mas o Amor existe e, sem ele, até mesmo o dístico positivista Ordem e Progresso perde conteúdo. Há uma avassaladora onda de aniquilamento da espiritualidade humana. A sociedade de massa tem esse objetivo, pois é essencial para a economia de mercado. Desgraçadamente, não percebemos que surgiram fantásticas possibilidades de domínio técnico do mundo, mas que, com elas, também novas categorias de mal. E uma das mais trágicas consequências está diante de nossos olhos embora não a enxerguemos ou não queiramos fazê-lo. É o isolamento das pessoas em uma solidão radical. Mesmo nas grandes manifestações, o homem está só.

É óbvio que — nessa quase histeria de pretender tantas transformações ao mesmo tempo — ninguém será maluco de também pedir que o dístico da bandeira nacional seja alterado de volta ao seu verdadeiro sentido: “Amor, Ordem e Progresso”. No entanto, isso deveria ser lembrado às novas gerações, sendo-lhes inculcado na alma. O povo brasileiro — como poucos no mundo — tem o espírito aberto à alegria e à solidariedade. Se o Amor voltar a ser o princípio, inevitavelmente a Ordem e o Progresso serão mais justos e verdadeiros.

Não me recordo de quem o disse, mas é alentador refletir sobre isso: “O homem tem uma espécie de memória de Deus, como que gravada em si mesmo. Ela, apenas, tem que ser despertada.”