Publicado 10 de Julho de 2013 - 5h00

Por Gustavo Mazzola

IG- Gustavo Mazzola

CEDOC

IG- Gustavo Mazzola

Certa vez, durante um almoço na Unicamp, perguntei para o Eustáquio como ele conseguia, todas as semanas, ter uma nova ideia para a sua crônica na Metrópole, como de costume tão bonita, criativa, de um lirismo transbordante. Não me lembro exatamente o que me disse, mas acredito que foi alguma coisa como o cuidado em ter sempre a mão alguns caminhos, buscar ideias no cotidiano, rever um arquivo próprio de memórias. Então, fechava-se no seu mundo e só deixava o computador quando tinha, enfim, o texto acabado.

Nesse mundo mágico das palavras, a obra literária de Eustáquio Teixeira Gomes é virtuosa, especialmente nas suas inspiradas crônicas, elaboração à qual ele, com afinco, já se ocupava, desde quando ainda bem jovem: éramos colegas de mesa na empresa, lá pelos meados da década de 70, e o via escrevê-las, escrevê-las em todos os tempos livres de que de que dispunha. Um dia, precisávamos de certas anotações de trabalho, que guardara com ele. Como estava em São Paulo, pediu-me que as pegasse em sua pasta, na gaveta. Procurando o material, vi que ali deixava, também, textos - muitos escritos a mão mesmo -, com momentos de sua vida, relatos que, anos mais tarde, iriam compor um interessante diário, o seu “Viagem ao centro do dia”.

Mas, afinal, o que é a crônica, como as do Eustáquio? Onde se situa? Está mais para um artigo, ou é um conto com certo jeitão especial? Cada um tem sua visão particular sobre o tema. De minha parte, entendo que ela não está nem aqui, nem lá. Talvez esteja entre ambos - no centro -, com a licença de poder se apresentar como um texto aberto, coloquial, facilmente digerível. Além disso, nos dá a possibilidade - muito importante - de interagir dentro de seu contexto, torná-lo mais atraente, recriá-lo - se preciso -, brincar com lances de empolgante ficção, imprimindo-lhe momentos de divertimento, um humor mais refinado, conseguir levantar os sentimentos... emocionar.

Nas dimensões da emoção, por sinal, é onde ela reina com maior competência, demonstrando toda a ternura e romantismo de seu criador. Uma amostra? Aqui vai um trabalho do próprio Eustáquio, justamente trechos do texto de abertura do seu livro de memórias, brilhante.

“Havia abandonado a ideia de fazer planos. Sempre gostei de projetar minha felicidade futura. Parece haver um grave erro nisso: porque a futura e não a presente? Termino por acreditar que a melhor maneira de contar com a felicidade é não correr atrás dela. Os planos nunca saem de acordo do o script. A felicidade, para mim, seria ver meus livros publicados; ter Vera junto de mim pelo resto da vida; uma casa simples com móveis modestos e um escritório pequeno; jornais, revistas e livros; uma rua calma, árvores.

Esforço-me por me desgarrar dos fatos, tornar-me espectador deles, sem emoção, rancor, espanto ou medo. Alegria sim - alegria de me manter próximo e ao mesmo tempo distante de tudo. Noite tranquila. O zumbido de um mosquito vara a solidão da sala. Queria tê-la comigo, aqui, agora.

Às duas da tarde fui vê-la. Estava tudo silencioso e parecia não haver ninguém. Como a casa é fundos e o quarto é protegido por um muro, pude espreitar tranquilamente pela vidraça, sem ser visto da rua. Dormia a sono solto, um lenço vermelho em volta da cabeça. Quis surpreendê-la e contornei a casa. Como um ladrão forcei primeiro a porta da sala, depois da cozinha. Nenhuma cedeu. Voltei à janela do quarto e ergui a guilhotina. Acordou assustada. Mas eu já saltava para o interior do quarto e, cheio de ternura, apertava sua cabeça contra meu peito.

À noite saímos de mãos dadas e descemos à cidade a pé, sem ligar para o chuvisco e o céu enfarruscado.”

Penso que a crônica seja isso mesmo: pode começar num ano afastado da nossa vida, relembrar a infância e a juventude, ou remeter-nos para o futuro. Está livre, também, para ser um campo fértil a comentários mais pessoais, criticar algum movimento ou acontecimento na sociedade, pedir auxílio, agradecer às boas ações, cumprimentar belos gestos e bons trabalhos, apontar soluções. De repente, pode desobrigar-se de tudo, e só se ater a um singelo momento do cotidiano.

Se, num dos nossos animados cafezinhos, naquele tempo, antes da lufa-lufa do dia, Eustáquio tivesse me mostrado o texto acima, eu o surpreenderia lhe dizendo que já o conhecia. Era o que eu, de relance, havia visto na sua gaveta, quando procurava dados de uma entrevista ainda a ser trabalhada no dia seguinte.

Escrito por:

Gustavo Mazzola