Publicado 15 de Julho de 2013 - 5h00

IG - FABIO TOLEDO

CEDOC

IG - FABIO TOLEDO

Quando os filhos vão crescendo e ganhando autonomia, uma dificuldade de muitos pais é admitir que eles tenham preservada a intimidade. Como consequência disso, há fatos, sentimentos e situações das suas vidas que não temos direito de saber, a menos que eles voluntariamente queiram nos contar.

E o direito de ter preservada a sua intimidade é tão importante que se aplica inclusive àquelas situações em que eles tenham praticado alguma conduta inadequada. Tomemos um exemplo. Uma mãe, desconfiada de que o filho tenha ingerido bebida alcoólica em excesso ou que esteja saindo com más companhias, passa a fazer um interminável interrogatório, ou mesmo a usar de chantagem emocional com o propósito de arrancar a verdade do filho. Acontece que essa estratégia é ineficaz e, muitas vezes, excede o limite do que temos direito de saber.

Isso não quer dizer, evidentemente, que os pais possam descuidar da educação dos filhos, não se importando com o que fazem ou com quem andam. Bem ao contrário, devem estar atentos de modo a ajudá-los com conselhos oportunos.

Seria muito bom que as mães e os pais conquistassem a confiança das filhas e dos filhos, de modo que elas e eles se sentissem à vontade para lhes confidenciar aspectos importantes das suas vidas. No entanto, isso é algo que se busca para que possamos ajudá-los e não simplesmente para termos a sensação de controle das suas vidas.

Assumir essa postura respeitosa para com a liberdade e intimidade dos nossos filhos não é fácil. Por vezes exigirá das mães e dos pais um esforço enorme. É que “se não temos todos os fatos, como poderemos ajudá-los?” — pode-se argumentar. No entanto, se estamos atentos ao que se passa com eles e, principalmente, se nos mostramos disponíveis e prontos para ouvi-los em seus anseios e necessidades, cedo ou tarde encontrarão em nós um refúgio muito receptivo para abrir, com total liberdade, a sua intimidade.

Além disso, devemos considerar que educar envolve sempre um risco. E isso implica também arriscar-se a aceitar que os fatos necessários para bem exercer essa missão de educadores nos serão revelados no momento oportuno.

Soube de uma mãe que tinha uma fundada desconfiança de que a filha estava usando maconha. Diante dessa desconfiança, o seu desejo era contratar um detetive particular. Mal podia esperar por uma prova “contundente” disso para esfregá-la na cara da filha, com uma frase do tipo: “já sei de tudo!”.

Essa mãe, bem intencionada, mas com uma estratégia muito equivocada, teve uma luz de pensar em como se sentiria se ela própria fosse apanhada nalguma falta e alguém lhe atirasse na cara esse fato, talvez exibindo uma prova inquestionável do seu erro. E então pôs-se a pensar em como gostaria de ser corrigida nessa situação: com carinho, no momento oportuno e, sobretudo, que se sentisse compreendida e estimulada a mudar. E então decidiu fazer o mesmo com a filha. Não tardou em que essa procurasse a mãe para lhe relatar o problema e buscar ajuda.

Isso não quer dizer, também, que os pais não devam punir os comportamentos inadequados dos filhos. Se, após tê-los ensinado e alertado, insistem em manter um mau comportamento, isso deve ensejar consequências, que então haverão de ser buscadas com prudência. No entanto, isso não é o mais importante nem o mais eficaz na educação. É que ninguém será verdadeiramente bom se não se decidir a sê-lo livremente. Nesse contexto, o castigo pode ser algo necessário, porém, por si só não suscita no educando o desejo de ser melhor.

A consciência é um reduto inviolável do ser humano. Ninguém pode nela entrar sem a devida permissão. E, ao fazê-lo, deve considerar que entra num reduto sagrado. Isso se aplica também aos pais. Daí que vem o grande desafio de sermos amigos dos filhos, pois são com aqueles com quem temos verdadeira amizade que nos sentimos mais à vontade para nos abrirmos e nos deixarmos ajudar.