Publicado 10 de Julho de 2013 - 5h00

Por Rodrigo de Moraes

Rodrigo de Moraes é jornalista da Agência Anhanguera de Notícias rodrigo@rac.com.br

Cedoc/AAN

Rodrigo de Moraes é jornalista da Agência Anhanguera de Notícias [email protected]

Contam — ignoro se é verdade — que, não sei por que cargas d’água, Charlie Chaplin entrou em uma competição que premiava o melhor imitador de Carlitos, o imortal personagem do próprio Chaplin. Por conta de outras cargas d’água que também ignoro, a história é que o ator não levou o primeiro lugar: o júri (imagino que tenha havido um nesse suposto certame) decidiu que a melhor pantomima do adorável vagabundo foi executada por algum outro imitador. Premiou-se, que injustiça, o simulacro, a caricatura.

Lembrei dessa história por um motivo que alguns podem achar prosaico em demasia — profano até, dependendo da consideração que, como eu, tenham pela criação de Charles Chaplin. É que ouvi o novo disco do Black Sabbath, a banda que lançou os fundamentos do heavy metal e que atravessou, dinossauricamente, as décadas com flutuações em sua formação e produziu, nessa trajetória, um discografia que varia entre o essencial e o descartável.

Bueno. Na primeira categoria estão títulos como Paranoid, Vol. 40 e Sabbath Bloody Sabbath. Na segunda... bem, não vou me dar ao trabalho de enumerá-los. Em outras palavras, o conjunto de canções — sim, canções, em que pese a atmosfera sombria, desiludida e por vezes desesperada que elas sugerem, entre guitarras ásperas e vocais que flertam com a insanidade — por meio das quais o Black Sabbath se consolidou como um dos grandes nomes do rock’n’roll pertencem aos primeiros anos da banda, na desiludida primeira metade da década de 70.

Pois bem, o disco em questão, intitulado 13, vem sendo incensado como o melhor do Black Sabbath em décadas. O novo trabalho também marca o retorno do mítico vocalista Ozzy Osbourne ao grupo após três décadas e meia. Louva-se também a escolha do produtor Rick Rubin para burilar o disco: seu trabalho procurou trazer de volta o som meio primitivo, cru e cinzento com o qual a banda conquistou seu lugar no rock.

Andei ouvindo o novo trabalho, e concordo com o que dizem sobre o resgate da sonoridade dos “anos dourados” do Sabbath (se me permitem a intimidade...). É, de fato, um disco muito bom de se ouvir — isto é, se você gosta rock setentista. O que mais salta aos ouvidos nesse novo trabalho é a ausência de grandiloquências, de artifícios, de malabarismos de estúdio, enfim, de qualquer coisa que pudesse dar uma aura de “modernidade” no som dos sessentões. “Sabbath bom é Sabbath antigo” parece ter sido a máxima que norteou a concepção do novo disco. E essa ideia está longe de ser equivocada — é só perguntar para os fãs empedernidos da banda.

No entanto, esse resgate de uma sonoridade “esquecida” — ou colocada para escanteio por um grupo disposto a se reinventar, se reciclar e se modernizar — acabou por colocar outra questão. O Black Sabbath exerceu tanta influência que algumas bandas surgidas décadas depois acabaram, fatalmente, imitando sua sonoridade. Em graus mais sutis — caso das guitarras do Queens of The Stone Age —, ou de maneira mais descarada — como a banda Wolf Mother, cujos integrantes parecem acreditar que ainda estão vivendo nos cabeludos (em mais de um sentido) anos 70.

Ou seja, por mais que sejam os criadores, por fato e direito, da sonoridade mastodônica que abalou para sempre os alicerces da música popular ocidental na segunda metade do século 20, os acordes do Sabbath foram tão imitados que o direito de propriedade sobre eles parece ter se perdido. Assim, quando lançam um disco no intuito de resgatar a sonoridade que se perdeu pela ação do tempo e dos imitadores, o Black Sabbath parece imitar a si mesmo. E corre o risco de ficar com a mesma cara de Carlitos ao receber o prêmio de consolação naquele suposto concurso...

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Rodrigo de Moraes