Publicado 12 de Julho de 2013 - 5h00

Por Pasquale Cipro Neto

PASQUALE CIPRO NETO

Cedoc/ RAC

PASQUALE CIPRO NETO

Nos cardápios de alguns restaurantes, costuma-se ler uma observação semelhante a esta: “Todos os pratos acompanham arroz, salada e pão”. Releia a frase, caro leitor, e veja se percebe nela algo “diferente” ou “estranho”.

Releu? Vamos lá. Quem acompanha quem? Qual é o papel do arroz, da salada e do pão na composição do prato? Supõe-se que o arroz, a salada e o pão sejam acompanhantes do elemento principal da iguaria. Tomemos como exemplo um filé, ao que quer que seja (“ao molho madeira”, “à cubana” etc.). Qual é a vedete do prato? Obviamente, é o filé, não? Tanto é o filé que o nome do prato começa com “filé”. Como se vê, ao pé da letra, não são os pratos que acompanham o arroz, a salada e o pão; o arroz, a salada e o pão é que acompanham a “estrela” principal dos pratos desses restaurantes. Essa ideia seria expressa com mais clareza por algo como “Os pratos são acompanhados de arroz, salada e pão”, ou “Arroz, salada e pão acompanham os pratos”.

Como se vê, na frase dos cardápios houve cruzamento de construções, fenômeno mais comum do que se imagina. Com “Esse piso escorrega muito”, por exemplo, não se quer dizer que o piso escorrega, mas que se escorrega facilmente no piso em questão, ou seja, que o piso é escorregadio. Diz-se, então, que “esse piso escorrega”, construção que parece resultar da redução de “nesse piso se escorrega”.

Outro caso comum é o de frases como “Essa mercadoria vende muito bem”, com a qual não se quer dizer que a tal mercadoria é uma eficiente integrante da equipe de vendas. O que se quer dizer é que a tal mercadoria é bem vendida, que é fácil vendê-la etc.

No caso do último exemplo, cuja estrutura é ativa, ocorre passividade, já que o sujeito (“essa mercadoria”) não é o executor do processo expresso pelo verbo “vender”; é o alvo, o paciente desse processo. No exemplo do piso (“Esse piso escorrega muito”), transforma-se em sujeito (“o piso”) aquilo que, na construção originária, seria adjunto adverbial de lugar. Tradução: o piso não é propriamente quem escorrega, mas o lugar em que se escorrega.

A esta altura, o leitor talvez queira saber se as construções que vimos até aqui ocorrem na linguagem culta. As obras de análise desse tipo de fato linguístico (os dicionários de regência, por exemplo) demonstram que processos como os relatados neste texto fazem parte da “evolução” da regência verbal. No entanto, caro leitor, a questão não é tão simples como talvez se desejasse. Como já afirmei várias vezes neste espaço, não basta uma ou outra ocorrência de determinada construção para que se possa dizer que ela ocorre com frequência na língua padrão. O caso de “Esta mercadoria vende muito bem”, por exemplo, já é mais do que consagrado na linguagem coloquial e na literária, mas é citado com restrição por um ou outro autor.

O “Aurélio” diz que “vender” com o sentido de “ser vendável” ou “ter boa venda” constitui brasileirismo, ou seja, é típico do português do Brasil.

Escrito por:

Pasquale Cipro Neto