Publicado 13 de Julho de 2013 - 0h00

Colunista José Ernesto

Fábio Melo/Gazeta de Ribeirão

Colunista José Ernesto

Até a década de 60 era muito frequente circos se apresentarem por aqui. Alguns eram até locais. Anunciavam que suas sessões, no pátio da Mogiana na Rua José Bonifácio ou em terrenos baldios dos bairros, teriam um “ato variado” e uma peça teatral. No ato variado víamos trapezistas, mágicos (salvo engano de memoria ou de redação o mágico do Circo do Biriba chamava-se Mr. Roberstack), palhaços, contorcionistas, etc. Seguia-se uma peça teatral, que era composta de vários capítulos chamados de atos e no final um ato especial chamado de apoteose. A apoteose era o ato para a plateia se emocionar e até chorar. A troca dos cenários entre um ato e outro era feita por figuras muito curiosas chamadas de “charutos”.

Lembro-me de uma peça famosa que se chamava “E o céu uniu dois corações”, de Antenor Pimenta (1914 – 1994). Um amor proibido, dramas familiares e na apoteose dois corações em tecido rubro brilhante, estilizados e unidos, simbolizando os corações dos heróis Alberto e Nely, subiam “às lonas” para emoção e lágrimas da plateia. Na época chorava-se mais, por menos.

Os circos hoje são raros, a família Pimenta e o Biriba não circulam mais com seus espetáculos pelos bairros da cidade, mas vivemos peças de circo-teatro reais e aqui descrevo uma tragédia moderna, cujo final também é apoteótico.

Primeiro ato – Recentemente, com coordenação do Dr. Fernando Nobre, a Sociedade Brasileira de Cardiologia, investigou o conhecimento da população sobre fatores de risco do infarto agudo do miocárdio. Entendem que o tabagismo tem relação com infarto 31% dos adultos; a pressão arterial alta, 18%; o colesterol sanguíneo elevado, 10%; a obesidade e sobrepeso, 13%; o diabetes, 5%; o sedentarismo, 17% e a ingestão elevada de gordura, 3%. Na Califórnia brasileira ou Capital da Cultura, com quatro Universidades os números foram semelhantes. Ou seja, a nau ribeirão-pretana é a mesma dos brasileiros, ou seja, dos insensatos.

Segundo ato – Num estudo feito pelo Conselho Latino-Americano para Cuidado Cardiovascular (CLACC), do qual fiz parte, 53% dos brasileiros adultos nunca dosaram seus níveis sanguíneos de colesterol. Dos que o fizeram, 22% tinham colesterol elevado e pasmem somente 33% destes estavam em tratamento. 27% nunca se trataram, 23% iniciaram e interromperam o tratamento. Nosso Sistema de saúde fornece gratuitamente os medicamentos para tratamento desse problema de saúde.

Terceiro ato - Os resultados do estudo VIGITEL (Vigilância de fatores de risco e de proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico). O volume de dados é muito grande, mas me chama a atenção que 14,8% dos brasileiros ainda fumam. Quase metade da população do Brasil (49%) está acima do peso considerado saudável e a população de obesos subiu de 11,4% para 15,8%. Em ambas as situações a prevalência é maior na população com menor escolaridade. Apenas 20,2% consomem cinco ou mais porções de frutas e hortaliças por dia. O consumo de carnes com excesso de gordura, no entanto, está presente nos hábitos de 34,6% dos entrevistados.

Apoteose – Morrem por ano cerca de 370.000 brasileiros por doenças do aparelho circulatório e desses cerca de 150.000 por infarto do musculo do coração (miocárdio) e suas complicações. Voltamos ao de sempre. Sem investimentos maciços em educação tudo será sempre o mesmo. Aparentemente os culpados pelos males da saúde no Brasil já foram encontrados. Desta vez não é o mordomo como nas peças de suspense de Agatha Christie. São os médicos.

Infelizmente nós os “charutos” (eleitores) não conseguimos ainda mudar o cenário. É para chorar ou será que hoje choramos menos, por mais?