Publicado 10 de Julho de 2013 - 5h00

Por André Fernandes

André Fernandes

Cedoc/AAN

André Fernandes

Já escrevi sobre os custos sociais das escolhas privadas divorcistas. O casamento começa como um grande “barato” e, com o rompimento conjugal, termina bem “caro”. De fato, já enfrentei casos em que os problemas conjugais afetavam a própria integridade física ou psicológica dos envolvidos, para os quais a solução adotada foi o divórcio. Quando o casal, nesse grau conturbado de relacionamento, chega diante de um magistrado, não há soluções fáceis. Há soluções possíveis, dentre as quais o divórcio é apenas uma delas e não a única.

Olhando para alguns processos, tenho a impressão de que muitos relacionamentos conjugais lembram os vínculos dos países europeus, diante da crise financeira que assola aquela região: enquanto há dinheiro, há “amor”. Quando a grana escasseia, o que nunca foi amor vira afeto, o afeto muda para respeito mútuo até o dia em que o respeito acaba. E a mutualidade também.

Certa vez, numa audiência, ouvindo um psicanalista, da linha libertária, ele disse, a respeito do casal que litigava num processo “depois que o dinheiro acabou”, que “a melhor saída para os cônjuges era o divórcio, porque sem tesão, não há solução”. Se toda “solução” para um casal passa invariavelmente pelo “tesão”, então haja academia, consultas em clínicas de medicina estética, compras de lingeries eróticas e de afrodisíacos, além de caixas e caixas de viagra (dizem que chá de ginseng é uma ótima alternativa...).

Nesse ritmo, a hipófise entra em ritmo de estresse glandular e não há “tesão” que a faça funcionar. Aliás, aqui, o “tesão” não é a solução, porque o amor é uma dimensão fincada na vontade e não na afetividade. A vida conjugal é uma dessas realidades que, se não crescem, morrem, porque o amor não é algo abstrato, com o perdão dos poetas: o que começou com uma flor, um beijo (seguido de uma pisada, no meu caso) ou uma troca de olhares, torna-se concreto, quando se conformou num projeto de vida comum que vai crescendo à base de pequenas coisas.

São pequenas, mas decisivas para manter acesa a chama do amor (e não do “tesão”) que — reabilitando-me com os poetas — uma vez concebido, assumiu a vocação de ser para sempre. Quaisquer que sejam essas pequenas coisas, elas têm uma alma comum: o cuidado recíproco, essencial para uma boa vida conjugal. Indico, então, algumas sugestões de pequenas coisas, retiradas a partir da reflexão sobre a contribuição psicanalítica do “tesão como solução”.

Um casal precisa ter objetivos vitais comuns. Desde que nos unimos, iniciamos um mesmo projeto de vida que não segue adiante, se cada qual resolve ir por seu lado: a vida conjugal é uma canoa com dois remos. Um casal precisa dividir momentos juntos, porque a voragem cotidiana pode criar uma certa distância, de maneira que aquilo que deveria ser tão perto, fica tão longe. Um casal deve entrar no consenso quanto à educação da prole, ainda que cada um tenha recebido uma educação diferente. O zelo comum pela educação e formação dos filhos é um dos melhores termômetros do grau de amor conjugal.

Um casal deve fomentar o respeito mútuo, porque não há amor sem respeito. Quando falta, a equidade evapora-se, gera a incompreensão que pode descambar para os maus-tratos verbais ou físicos. Aliás, relaxar no cuidado visual é uma maneira concreta de desrespeito mútuo. Então, é melhor aposentar a combinação “camisa velha — calça de moletom — crocs” como indumentária de final de semana, salvo se estiver sozinho. Um casal deve zelar por sua intimidade, onde o diálogo deve ser transparente e profundo.

Um casal deve saber administrar o tempo livre, porque o ócio é uma bela ocasião para o exercício da criatividade. Assim, evita-se o tédio conjugal e a penca de problemas que costuma vir junto. Um casal deve saber ter manifestações recíprocas e públicas de afeto, ainda que o costume nos leve a dar as coisas por sabidas e sentidas: mira-se com os olhos, mas se admira com palavras. Um casal deve repartir as tarefas domésticas de forma equitativa e zelar por uma boa comunicação, porque, além de saber escutar e falar, é preciso um esforço por entender e, muitas vezes, ceder.

Viver o espírito dessas pequenas coisas — o cuidado recíproco, esse estar pendente do outro ao longo dia — não é fácil, sobretudo numa sociedade que, cada vez mais, quer que vivamos para trabalhar e não trabalhar para vivermos. É um esforço que caminha pela senda de um amor comprometido. E, dessa maneira, a hipófise agradece, porque, quando o cuidado conjugal está fincado na vontade, a falta de “tesão” é o menor dos problemas. Com respeito à divergência, é o que penso.

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André Fernandes