Publicado 13 de Julho de 2013 - 5h00

ALBERTO DINES

Cedoc/ RAC

ALBERTO DINES

Algumas faixas empunhadas pelos sindicalistas no Dia Nacional de Lutas diziam “Com Dilma”. É possível que estivessem apenas contra a equipe econômica do governo, mas o bloqueio ilegal em 66 trechos de estradas federais em 18 estados constitui evidentemente um ato de sabotagem CONTRA Dilma Rousseff e os interesses nacionais. A presidente reagiu de imediato condenando a quebra da ordem em pronunciamento no Uruguai.

Um dos principais efeitos das jornadas de junho foi o de desvendar a deterioração do movimento sindical que, em plena ditadura, exibia invejável musculatura e consistência política. Justamente para desfazer a imagem de decrepitude produzida pelas formidáveis manifestações populares as centrais de trabalhadores tentaram improvisar uma reação que se mostrou escandalosamente contraproducente.

Os fantasmas do peleguismo saltaram da sepultura e exibiram de uma vez todos os estragos causados pela passagem do tempo. Os flagrantes de pagamento de um pró-labore aos manifestantes — logo apelidado de bolsa-protesto — revelaram práticas que nem nos áureos tempos do sindicalismo chapa-branca foram tão visíveis.

Apavorados com a surpreendente alteração no tabuleiro político, setores do PT (aos quais, pelo visto, se aliou a Central Única dos Trabalhadores, CUT), adotaram uma estratégia míope, desesperada, de curto prazo. Ao invés de cerrarem fileiras em torno da presidente, fortalecendo-a mesmo quando tenta opções erradas, preferem preservar-se individualmente.

As ideias de importar médicos do Exterior ou exigir dos recém-formados uma prestação de serviços no SUS encontraram resistências corporativas, porém ofereceram a uma sociedade cansada de estéreis manobras eleitorais novas pautas para o debate. É isso que as passeatas queriam.

A presidente Dilma precisa ser fortalecida, a desastrada antecipação da sua re-candidatura concebida pelo presidente Lula não apenas serviu de alavanca para os protestos populares, mas deixou-a prematuramente entregue às feras. Se a tal base aliada só consegue ser fiel aos seus apetites, cabe aos realistas do PT buscar suportes em outras paragens. Convém não desprezar a dinâmica política e lembrar que o triunvirato Eduardo Alves-Renan Calheiros-Michel Temer jogava há poucos anos no time adversário. E com muita disposição.

Os ensaios de uma campanha “Volta, Lula” são deletérios e inoportunos. Fragilizam a administração Dilma e comprometem sua capacidade de aproveitar os restantes 17 meses do mandato para tomar decisões de capital importância. Com ou sem plebiscito.

O primeiro pronunciamento da presidente Dilma durante as manifestações foi tardio, não obstante teve a coragem de identificar sem subterfúgios as mensagens emitidas pelas ruas: chega de corrupção.

Há dias, Dilma enfrentou com galhardia as vaias de grupos de prefeitos com uma das frases mais sinceras que pronunciou nos últimos tempos: “vocês são prefeitos como eu sou presidente, vocês sabem que não podemos fazer milagres”.

Não foram os marqueteiros que lhe sopraram o desabafo, foi o seu instinto de sobrevivência. E este instinto pode, sim, produzir milagres.