Publicado 14 de Julho de 2013 - 11h36

Hélio Evangelista Junior adotou Ezequiel: longa espera de dez anos

Antonio Trivelin/AAN

Hélio Evangelista Junior adotou Ezequiel: longa espera de dez anos

“Ser adotado é o mesmo que crescer no coração de uma mãe em vez de crescer em sua barriga.” A definição se encaixa perfeitamente às histórias de vida de Max e Ícaro. Os dois são negros e foram adotados em Piracicaba nos últimos anos. Soma-se à trajetória deles o fato de também representarem uma vitória num país que ainda luta contra o preconceito racial.

No Brasil, apesar de ter havido avanços, o número de pessoas habilitadas que querem apenas crianças brancas ainda é muito superior ao daqueles com predileção exclusiva por outras raças. São 9.474 pessoas que querem apenas brancos, contra 1.631 que aceitam apenas pardos e 574 que desejam adotar somente crianças negras.

Atualmente há 5.471 crianças e adolescentes inscritos no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). Desses, 1.787 são brancos, 1.035 são negros e 2.602 são pardos. Se por um lado ainda há discriminação no número de crianças negras adotadas, o número de adoções no Brasil aumentou 30% em um ano. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), só em 2012, 826 meninas e meninos inscritos no Cadastro Nacional foram adotados.

Hoje, 29.535 pessoas esperam em uma fila a chance de adotar uma criança. As famílias que pretendem adotar devem participar de encontros e palestras para se preparar. Em todo País, os grupos de apoio à adoção ajudam muitos pais, principalmente aqueles que querem adotar crianças com mais de 5 anos. Segundo o administrador do site Adoção Brasil, Wagner Yamuto, os grupos de adoção têm um papel fundamental para ajudar os pretendentes a definir o perfil da criança desejada.

Ele avalia que esse trabalho tem sido muito bem feito. “Os estudos mostram que mais pessoas aceitam crianças negras, mas o percentual é muito menor do que o esperado. Enquanto o percentual de pretendentes define um perfil de criança, nos abrigos, o perfil é completamente o contrário”, justifica. Yamuto afirma que o problema está ligado à falta de informação e não ao preconceito dos pretendentes ou da sociedade como é pregado por muitos especialistas.

A aposentada Ermelinda Clarice de Brito, 68 anos, teve seis filhos. Depois de 30 anos da última gestação, quando já estava com 46 anos, decidiu adotar uma criança: João, hoje, com 22 anos. “A mãe biológica dele já tinha seis filhos e disse que não o levaria do hospital. Eu fiquei sabendo dessa história, me comovi e lutei para ficar com ele”.

Na família de Ermelinda, um dos seus filhos, o autônomo Hélio Evangelista Junior, de 44 anos, também adotou uma criança negra. Ele já tinha dois filhos quando a adoção de Ezequiel, de três anos, foi autorizada. “Foi uma longa espera de dez anos”. Após ter conseguido a adoção, um ano depois, um dos seus filhos faleceu. Junior acaba de ter aprovado o pedido para adotar mais duas crianças, de seis e três anos, respectivamente. “Estou muito feliz por esse presente de Deus, pois terei quatro filhos em casa”.