Publicado 10 de Julho de 2013 - 18h19

Por France Press

O acusado do atentado de Boston, Djokhar Tsarnaev, compareceu nesta quarta-feira, pela primeira vez, diante de um juiz e na presença de algumas de suas vítimas e declarou-se inocente.

"Inocente", repetiu várias vezes, com voz grave, o jovem de 19 anos de origem chechena, ao se apresentar perante a juíza Marianne Bowler.

Tsarnaev chegou às 15h30 (16h30 de Brasília) à audiência, vestindo o uniforme laranja usado pelos detentos nos Estados Unidos. Ele estava algemado e com os pés atados quando entrou na pequena sala de audiências do tribunal federal de Boston. O local estava repleto de vítimas emocionadas, jornalistas e alguns jovens que disseram ser amigos das vítimas.

Também estava presente um grupo de pessoas que apoiam o réu e acreditam em sua inocência. "Fiz minha própria investigação. Para mim, trata-se de uma manipulação do FBI", afirmou Duke Latouf, que chegou de Las Vegas especialmente para acompanhar o caso.

"Não vejo prova alguma", disse Karina Figueroa, de Nova York, que exibia dois cartazes. Um deles defendia Djokhar.

A audiência de "leitura de acusações" durou sete minutos, durante os quais o jovem muçulmano ouviu as 30 acusações que pesam contra ele. Se for considerado culpado, pelos menos 17 dessas acusações já são suficientes para que seja sentenciado à prisão perpétua, ou à pena de morte.

Entre as acusações, estão "uso de arma de destruição em massa com resultado de morte e conspiração; atentado em um local público com resultado de morte e conspiração; destruição maliciosa de propriedade com resultado de morte e conspiração; e uso de arma de fogo durante e em relação a um crime violento".

Conforme informado anteriormente pela juíza Marianne, nessa sessão, ele apenas deveria "se declarar culpado, ou inocente". O julgamento ainda deve levar alguns meses para começar.

Dzhokhar Tsarnaev é acusado do duplo atentado ocorrido na maratona de Boston em 15 de abril, no qual três pessoas morreram e outras 264 ficaram feridas. Quinze feridos sofreram amputações, alguns em ambas as pernas. Depois do ataque, os dois irmãos enfrentaram a polícia em Watertown, um subúrbio de Boston. Tamerlan foi morto no dia 18 de abril, mas Dzhokhar conseguiu escapar.

O jovem foi detido horas depois, escondido em um barco no jardim de uma casa, ferido, após uma verdadeira caçada humana que paralisou todo o país ao longo do dia.

Reforço

As autoridades afirmam que Dzhokhar Tsarnaev cometeu o atentado com explosivo na linha de chegada da maratona de Boston junto com seu irmão Tamerlan, de 26 anos, falecido durante um confronto com a polícia.

As vítimas do duplo atentado, praticado no coração da cidade, foram informadas da realização da audiência, razão pela qual as autoridades judiciais habilitaram uma segunda sala onde poderiam acompanhar a sessão.

O acesso ao tribunal federal foi reforçado com barreiras de proteção metálica diante do grande movimento esperado.

Essa foi a primeira sessão, na qual as vítimas encaram o acusado. Algumas decidiram não comparecer. Outras, como Liz Norden - mãe de dois filhos, de 32 e 33, que tiveram de amputar uma perna cada -, fizeram questão de ir. "Quero saber por que" os irmãos Tsarnaev cometeram o atentado, disse ela, antes do início da audiência. "Não entendo como se pode viver neste país e pensar desta forma", desabafou.

Rudy Giuliani, prefeito de Nova York durante os atentados do 11 de Setembro, disse nesta quarta que "a correção política" pode ter impedido a Polícia Federal (FBI) de detectar Tamerlan Tsarnaev como "terrorista islamita" antes dos atentados.

"Teríamos tido uma possibilidade maior de desmantelar Ford Hood e, eventualmente - insisto, eventualmente -, os atentados de Boston, se as burocracias tivessem sido menos reticentes a identificar os futuros assassinos como potenciais terroristas islamitas", afirmou Giuliani, em audiência na Câmara de Representantes.

Um castigo

Segundo consta na ata de acusação, Dzhokhar escreveu uma nota antes de ser capturado, afirmando que o atentado de Boston era um castigo pelas intervenções militares dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque.

"O governo dos Estados Unidos está matando nossos civis inocentes. Não posso suportar ver tanta maldade sem punição. Os muçulmanos são um corpo. Se fere um, fere todos nós", declarou o réu, em um trecho do texto.

"Parem de matar nosso povo inocente e de nos prender", insistiu.

Os irmãos, que aparentemente teriam agido sozinhos, prepararam as bombas, seguindo instruções da revista digital "Inspire", uma publicação da rede Al-Qaeda, acrescenta a ata de acusação.

Tsarnaev chegou aos Estados Unidos com sua família em 2002, aos oito anos, procedente do Quirguistão. Na época do atentado, o jovem estudava na Universidade de Massachusetts (U-Mass), em Dartmouth, tinha amigos e frequentava as áreas esportivas do campus.

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