Publicado 14 de Julho de 2013 - 5h00

Por Vilma Gasques

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“O casamento com o circo é o mais feliz que existe.” Com esta frase, o diretor do Circo Tihany, Richard Massone, define sua paixão pela arte circense. Esta arte está bem representada em Campinas durante este mês, com o espetáculo AbraKdabra, que reúne 50 artistas de 25 nacionalidades, muita música, dança e efeitos especiais. O ilusionismo abriu as portas para Massone, atual administrador e diretor do circo. Considerado um dos três maiores do mundo, o Tihany apresenta as principais vertentes do picadeiro: acrobacia, ilusionismo e music hall, este com bailarinas que não deixam a desejar a nenhum espetáculo de dança. O circo está de volta a Campinas após 14 anos de sua última temporada na cidade.

 

No show, Massone surge como o mágico que faz uma motocicleta desaparecer de um lugar e aparecer em outro, próximo à plateia. E, mais surpreendente, faz um helicóptero surgir no palco. Esses números de ilusionismo dão uma ideia do aparato técnico e dos esforços que a montagem de um circo desse porte exige. A começar pelo espaço físico viável. Para distribuir palco, cadeiras, área de recepção e estacionamento são necessários 12 mil metros quadrados disponíveis. “Nosso espetáculo não é popular. O espectador precisa de comodidades para apreciar o show de mais de duas horas, composto por 18 atos, que incluem acrobacia, equilíbrio, magia, contorcionismo, dança e humor. Para isso, utilizamos vários cenários que mudam como num teatro”, explica o artista.

 

Toda essa estrutura é transportada de uma cidade a outra por uma frota de 42 carretas. “Nessa temporada, iniciada em 2010, já percorremos 17 cidades brasileiras. Entramos pelo Rio Amazonas, vindos da Venezuela. De Manaus, seguimos até Belém, no Pará. Foram muitos dias em navio pelo Amazonas. E isso foi muito bonito”, conta Massone. O tempo em que o circo permanece em cada cidade varia de acordo com a receptividade do público. “Em cidades maiores, a temporada é mais longa para que todos tenham a chance de se programar para assistir. E também há uma agenda criada para que a chegada do Tihany não coincida com outros eventos importantes na cidade. De Campinas vamos para o Rio de Janeiro”, informa.

 

Show internacional

A turnê que está no Brasil já foi assistida por mais de um milhão de pessoas. As atrações são selecionadas nos grandes festivais de circo, como Monte Carlo, Paris, Budapeste, Rússia e China. Em toda a existência, o Circo Tihany passou por 40 países, em um total de mais de 600 cidades, atraindo 80 milhões de pessoas.

Foto: Rodrigo Zanotto/AAN

Rodrigo Zanotto/AAN

Números clássicos e moderno intrigam: dos animais que saem da cartola ao helicóptero que surge do nada no palco

 

Vida de circo

Richard Massone não descende de uma família de artistas de circo, como é comum nesse meio em que segredos e truques de malabarismo, equilibrismo e mágica são passados de pai para filho. Tihany é o nome de uma cidade da Hungria, país de origem de Franz Czeisler, o fundador do circo. De origem judia, ele imigrou para o Brasil com a família em 1954, fugindo da perseguição nazista, e virou empresário, fundando o Tihany, em 1958.

 

Richard Massone conheceu Czeisler em 1964, quando o circo esteve na Argentina. Ele, então com 12 anos, foi apresentado ao dono do circo após o espetáculo. “Ali começou uma amizade. Ele fez alguns números de mágica para mim e eu, ainda muito inexperiente, mas já conhecendo alguns macetes, também demonstrei os meus. O circo foi embora, mas Czeisler passou a me mandar cartões postais das cidades em que se apresentava. Eu enviava cartas para ele”, lembra.

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Massone, já artista experiente, se mudou para o Brasil e durante uma temporada em São Paulo, recebeu a visita de Czeisler. Ele precisava se ausentar do Tihany por duas semanas e convidou Massone para realizar o número de ilusionismo no seu lugar. “Nunca mais saí do Tihany. Esse é o circo em que todos querem estar”, destaca. Hoje, Franz Czeisler, aos 96 anos, vive em Las Vegas, nos Estados Unidos. E Massone dá continuidade ao Tihany Spetacular por mais de três décadas.

 

“Eu já era um mágico consagrado em São Paulo. Mas o Tihany, como também é conhecido Czeisler, me ensinou todos os seus truques e me tornou o herdeiro da sua arte”, detalha. Os números mudam a cada temporada, porém, a essência do ilusionismo continua. “Os espetáculos que monto, na qualidade de diretor artístico, como o AbraKdabra, trazem atrações premiadas nos principais festivais europeus, a exemplo das contorcionistas da Mongólia e dos acrobatas”, revela.

 

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Foto: Rodrigo Zanotto/AAN

Rodrigo Zanotto/AAN

Henry Avalla Júnior, o Príncipe dos Palhaços, que também é equilibrista, no picadeiro: vencedor em vários festivais pelo mundo afora

 

Tradição que corre na veia

Ter um bom palhaço no elenco é quase uma obrigação em qualquer circo. No Tihany, quem se destaca nesse posto é Henry Ayalla Júnior, de 33 anos, representante da sexta geração de uma família de artistas circenses. Nascido na Venezuela, mudou-se para a Inglaterra ainda pequeno, mas cresceu sob a lona colorida, fazendo acrobacias.

 

Considerado o Príncipe dos Palhaços, já ganhou muitos festivais pelo mundo com suas brincadeiras. Foi contratado pelo Tihany quando fazia um show em Budapeste (Hungria). “Minha mãe tem um circo na Venezuela, mas eu prefiro ficar no Tihany porque esse é o sonho de todos os artistas por causa da qualidade”, revela. Acrobata citado duas vezes no Guinness, O Livro dos Recordes, Ayalla é também um equilibrista de alto nível. Quebrou o seu primeiro recorde ao dar 1.109 pulos de corda sobre um cabo. O outro recorde foi de velocidade – pulou 256 vezes no cabo suspenso em apenas 50 segundos.

 

Casado com uma inglesa que não faz parte da trupe, mas o acompanha em algumas viagens, Ayalla Júnior diz que ainda não tem filhos, mas quando tiver, vai torcer para que eles sigam seus passos, indo para a sétima geração de artistas. Com residências na Inglaterra e na França, conta que a vida de circo é a melhor que existe. “Além de trabalhar no que gosto, aprendo sobre a cultura, o idioma e a história dos lugares que visito. Ser equilibrista é mais fácil do que ser palhaço. É um desafio fazer as pessoas sorrirem”, avalia. Ayalla Júnior fala português, espanhol, inglês, italiano e francês e aprendeu a fazer a própria maquiagem para o espetáculo.

 

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Força concentrada

O pulsador, nome dado ao artista que usa força e técnica para executar a performance, Amaraltai Yadamtsoo nasceu na Mongólia. Em parceria com outro pulsador, faz o número que abre o espetáculo atualmente. A dupla é vencedora do primeiro prêmio do Festival de Circo de Barcelona (Espanha).

 

Casado com uma bailarina do Tihany que conheceu durante uma temporada na França, tem duas filhas. Kelly, de seis anos, a mais velha, quer ser contorcionista, conta o pulsador.

 

“Temos casa na Mongólia, mas, por ser muito distante, só vamos para lá a cada três anos. Gostamos muito de passar as férias em Las Vegas e Chicago (Estados Unidos) ou em alguma praia do Nordeste brasileiro”, diz. A família de Yadamtsoo faz parte do grupo de artistas que se hospeda em hoteis nas cidades em que o circo se instala. “Mas as crianças estudam. Procuramos sempre os colégios salesianos que encontramos em praticamente todas as cidades em que aportamos. A Kelly já fala espanhol, inglês, português e mongol”, frisa.

Foto: Rodrigo Zanotto/AAN

Rodrigo Zanotto/AAN

Começa o show: pulsadores, nome dado aos artistas que usam força, técnica e equilíbrio em suas perfomances, abrem o espetáculo do Tihany

 

Escultura humana

 

Um dos números mais impressionantes do espetáculo do Tihany reúne quatro contorcionistas da Mongólia. Uma delas, Bujinlkham Purevjav, de 22 anos, está no circo há dois anos e já foi premiada no festival de Monte Carlo. Há dois meses tirou férias e viajou 36 horas de avião para visitar a família na Mongólia. “A minha mãe é engenheira. E tenho um irmão também. Mas ninguém da família é artista. Só eu”, conta, lembrando que tinha amigas que trabalhavam em circos. E assim, veio a vontade de seguir carreira. “Antes, eu trabalhava em teatro e já viajei o mundo todo. Gosto de tudo no Brasil, principalmente das pessoas. Aqui, conheci o feijão e adorei; combinado com arroz é muito bom. E a carne brasileira é deliciosa”, elogia. Quando não está se apresentando ou ensaiando, a contorcionista gosta de fazer caminhadas, mas diz que ainda não teve tempo para conhecer Campinas.

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Escrito por:

Vilma Gasques