Publicado 13 de Agosto de 2013 - 15h31

Por Zeza Amaral

ZEZA

CEDOC

ZEZA

Gosto de conservar as boas coisas da vida. Gosto de tomar café de coador no copo americano, se possível, ao lado de pessoas que amo. De preferência na cozinha, tão pequena como a minha mãe. Ajunta-se ali uma meia dúzia de boas almas e tem-se boas conversas sobres tempos idos, alguém que se lembra de um causo de família, trágico na época e engraçado anos depois. Outro lembra mais uma história e assim segue o fim da tarde enquanto um outro habitante da mesa lembra de um tempero de macarrão que a mãe fazia, alguém propõe experimentá-lo e o cardápio da janta nasce assim, como tiririca na grama.

Gosto de conservar as boas coisas da vida. E lembrar do aniversário do irmão e perguntar sobre a saúde de algum parente, pois tudo vale a pena. É sinal que estamos irmanados e prontos para o que der e vier. Se mais não podemos é claro que não temos como remediar o que se faz urgente, ou por falta de dinheiro ou porque o fim da vida é o que é, e contra isso só muita esperança, rezas e mais novenas. E mais café é coado, a tia resolve fazer um bolinho de chuva e assim seguimos depositando na mesa nossas memórias, algumas boas e outras ruins, e que, naquele momento, se argamassam em boa sustança de amizade e vida.

Sou conservador por natureza e gosto que o pau é pau e a pedra é pedra. Mas confesso que até hoje não sei se são os mares que formam os rios ou se são os rios formam os mares. E nada sei do que sonham os poetas que escreveram sobre o ouvir estrelas, das dúvidas do ser ou não ser, do amor que é infinito posto que é chama, das estrelas que a cabrocha pisava distraída ou, verso maior, que a saudade é a última notícia que tenho de você. Conservo velhas canções, como se vê.

E conservo em mim a beleza da dúvida. E também da certeza. Se não posso perdoar então serei eu a pedir perdão por não compreender o erro, e perdoar. E conservador que sou dos meus limites sigo sem a pretensão de julgar os atos de amigos e, mais, dos meus inimigos. Mesmo porque o dia de amanhã poderá nos surpreender com uma demanda comum, trocar o síndico do prédio, assinar um abaixo-assinado por um semáforo na esquina, ou contribuir para o enterro de um amigo comum. E assim conservo os absurdos do acaso.

Gosto da Constituição do meu país e a conservo em cívico respeito. Sem dúvida, ela deve melhorada em algumas coisas e eu mesmo também não estou satisfeito com algumas ideias que me nascem quando tenho notícias de pessoas que não gostam de fetos anencéfalos e propõem matá-los com alguma lei que os redima de tal assassinato. E troco o fogo de um inferno metafísico a esses desejado por uma pequena luz de vela que os ilumine para a esperança de que a vida vale sempre a pena e muito mais para quem não tem esperança alguma. Fascistas, bem sei, não suportam aleijões e sofrem com isso. De certo modo, fascistas também são politico-ideologicamente aleijados e por isso mesmo bem merecem ser protegidos de si mesmos.

O novo ministro do STF, Luiz Roberto Cardoso, é a favor do aborto de anencéfalos e de um tal ativismo judicial. Se entendi direito, acho que ele é a favor, também, de um aborto constitucional. Ou seja: José Dirceu, José Genoíno, Paulo Cunha, Delúbio Soares e demais corruptos condenados vão se livrar de suas penas maiores por conta do mensalão. E isso será o aborto da nossa democracia e do estado de direito. E isso me leva a conservar o sonho de estar equivocado. Espero.

Bom dia.

Escrito por:

Zeza Amaral