Publicado 08 de Abril de 2013 - 5h00

Por Antônio Contente

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Naquela manhã de 1976 as coisas corriam normalmente no departamento da Nasa, nos Estados Unidos, que recebia as imagens do satélite Skylab. Súbito o funcionário que monitorava as transmissões que vinham do espaço deu um berro: --- Meu Deus do céu!

Mal ecoou pela sala silenciosa o grito enregelante, todos se debruçaram sobre a mesa do horrorizado técnico. Alguns pensando que ele avistara pedra sideral imensa prestes a colidir com a terra. Outros que detectara flotilha de discos voadores preparando-se para ataque. Não se tratava de nada disso, porém: o que o satélite acabara de mostrar é que se desenrolava naquele instante, em extensa área da floresta amazônica, no sul do Pará, a maior queimada que os olhos humanos jamais tinham visto.

Não demorou muito os americanos enviaram as imagens horripilantes para o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) em São Paulo. Onde os tupiniquins também colocaram as mãos na cabeça. Alguém instalara sucursal do inferno numa área em que a floresta era não só absolutamente virgem, porém constituída por árvores de madeiras nobres, algumas com centenas de anos.

Bom, mas o IBDF (Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal, hoje Ibama) achou que a empresa que cometeu a barbaridade deveria ser multada. E foi, só que com penalidade jamais aplicada... Porque, segundo dizem até hoje, seria maior do que o empreendimento que estuprava a jungla.

Pois é, isso tudo, parte da tenebrosa história dos desmatamentos na Amazônia, anda sendo relembrado no momento a propósito do recente lançamento de um livro autobiográfico do ex-executivo alemão Wolfgang Sauer, que durante muitos e muitos anos dirigiu a Volkswagen em nosso país. Companhia esta responsável por quase matar do coração, já lá se vão 37 anos, os técnicos da Nasa.

Bom, a história do desmatamento não aparece bem na obra acima citada, cujo nome é “O Homem Volkswagen – 50 Anos de Brasil” (Geração Editorial, 527 páginas). De todo modo, está no cartapácio a maior parte de como a empresa que fabricava e fabrica ótimos carros resolveu investir na Amazônia. Para isso Sauer esteve em 1973 com o ministro Rangel Reis, que deu o aval à implantação da superfazenda para criação de bois, esperando levar fugitivos da seca nordestina para trabalhar lá. Mas o que Sauer realmente queria, segundo voz corrente, era solidificar seu nome, com o sucesso pecuário, para chegar à presidência mundial da Volks. A empresa, então, comprou 140 mil hectares, no sul do Pará, para a criação, num primeiro momento, de 60.000 bois.

O resultado disso acabou sendo que o susto do pessoal da Nasa no passado de repente se transferiu para a cúpula da Volks em Berlim. É que, em função da queimada talvez nunca igualada até hoje, o Partido Verde germânico protestou, atiçando o berreiro dos ecologistas do mundo inteiro, inclusive Brasil. O pessoal, em passeatas por inúmeras cidades em vários continentes, gritava que a Volks empenhava-se em destruir a Amazônia e, com isso, segundo afirmavam, “eliminar o oxigênio do planeta”, pois o fogaréu era tudo que o demônio queria para tirar da selva do Norte do Brasil a condição de “pulmão do mundo”.

Quando os dirigentes da Volks perceberam que a pregação pelo boicote dos seus carros crescia violentamente, trataram de se desvencilhar da fazenda brasileira, o que resultou em articulações complicadas que levaram o projeto megalomaníaco para o buraco. Era mais um patrocinado por gringos que falhava na Amazônia, como o que contei aqui na segunda-feira passada a respeito da Fordlândia. Que fez Henry Ford rasgar, junto das barrancas do rio Tapajós, nos anos 20 e 30, mais de um bilhão de dólares; em valores de hoje.

Volto ao livro de Wolfgang Sauer. Naturalmente o autor é apresentado como empreendedor de alta estirpe, o que realmente revelou através de suas ações na Volks brasileira. Mas o fato de ter, como diz o vulgo, quebrado a cara no projeto de criar ruminantes bovinos para mugir aos invés de só montar automóveis, de alguma forma mexeu com pelo menos um pedacinho da sua imagem de eficiência. Mácula, aliás, muito bem posta em artigo do jornalista Lúcio Flávio Pinto, no excelente “Jornal Pessoal”, editado em Belém, quando diz em trabalho sobre o tema focalizado nesta crônica: “Talvez Wolfgang Sauer tenha sido visionário no polo industrial paulista, o maior do continente. Na selva amazônica ele foi um devastador”.

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Antônio Contente