Publicado 09 de Abril de 2013 - 11h42

Por Adriana Leite

A trabalhadora rural Sonia de Castro colhe tomates no Bairro Cruzeiro,em Sumaré

Edu Fortes/AAN

A trabalhadora rural Sonia de Castro colhe tomates no Bairro Cruzeiro,em Sumaré

O tomate é uma unanimidade nas mesas brasileiras. O fruto está presente na salada, no molho da macarronada e nos refogados. Mas o preço assustador, que chega a R$ 10,00 o quilo no mercado, brecou o consumo e gerou muitas queixas dos consumidores.

A queda na produção, o clima desfavorável e a mão de obra escassa são fatores que influenciaram a forte subida do custo do produto. Os agricultores reduziram as áreas plantadas e também sofreram a pressão dos custos mais altos de cultivo. A boa notícia é que, ao que tudo indica, o pico do preço já foi atingido - a tendência para as próximas semanas, portanto, é de queda.

Em Sumaré e Monte Mor, centros de produção de tomate de destaque no País, os produtores - que teriam motivos para comemorar a valorização do produto - estão na realidade desanimados com o cenário da agricultura.

De acordo com eles, os insumos sobem mês a mês e, apesar da alta de agora, nos últimos dois anos o valor do tomate teve queda. A recuperação atual é motivada muito mais por problemas de queda na produtividade por causa do excesso de chuvas pela diminuição da área plantada.

Números da Centrais de Abastecimento de Campinas (Ceasa) mostram que em março do ano passado a oferta de produto foi de 5.128 toneladas. Em março deste ano, foram só 3.261 toneladas, uma queda de 36%, ou 1.867 toneladas a menos.

E aí vale a lei da oferta e da procura: quanto menos disponível um produto, maior o seu preço. Maior mesmo. “Em março de 2012, o custo médio do quilo do fruto era de R$ 1,80 no atacado. O valor subiu para R$ 4,50 este ano, o que dá uma alta de 150%”, comentou o assessor técnico do Departamento de Mercado Hortifrutigranjeiro da Ceasa, Francisco Homero Marcondes. “O preço vem subindo desde o final do ano passado”, disse.

Marcondes afirmou que em todo o ano anterior foram comercializadas 53.450 toneladas de tomate na Ceasa, com uma média mensal de 4.450 toneladas. Em julho do ano passado, o preço médio era de R$ 3,52 por quilo.

“Em março deste ano, houve uma grande redução da oferta e a consequência foi a alta dos preços. Há um recuo da área plantada e as condições climáticas prejudicaram muito a cultura. Por isso a alta veio tão forte”, explicou. De acordo com Marcondes, porém, o valor do tomate bateu no teto - e o custo para o consumidor deve começar a declinar a partir de agora.

O mistério é o quanto. “Não dá para prever o patamar no qual o valor do tomate vai se estabilizar. O preço vai cair, é certo, mas não é impossível dizer o quanto”.

Achatamento

Representantes do Grupo Irmãos Andrade, que produz tomate em Sumaré, afirmaram que os agricultores sofrem com os altos custos dos insumos, da dependência do sistema de crédito para bancar as despesas da lavoura, da estagnação dos preços e da escassez de mão de obra.

Eles disseram que não há uma política agrícola que permita aos produtores conseguir margens que banquem o plantio e sobrevivência das propriedades.

Eles se dizem muito desmotivados e lamentaram as críticas contra os produtores pelo aumento dos preços, lembrando que no ano passado o valor era de R$ 5,00 a R$ 10,00 a caixa do tomate na lavoura, mas que neste ano chegou aos R$ 100,00.

Mas já nesta semana o valor recuou para até menos da metade disso - ficou entre R$ 40,00 e R$ 50,00. Os produtores comentaram que a média anual desde 1994 foi de R$ 8,00 o quilo - valor que não cobriria nem os custos de produção. E nos últimos dez anos, o preço teria ficado estabilizado ou em viés de baixa. Outro problema deste ano foi a queda de produtividade com o excesso de chuvas em março.

Ravagnani, presidente da Associação dos Agricultores e Pecuaristas de SumaréO presidente da Associação dos Agricultores e Pecuaristas de Sumaré, Marcos Izildo Ravagnani (ao lado), disse que é cada dia mais difícil encontrar trabalhadores para cuidar das lavouras.

“O custo da mão de obra também subiu muito. Encontrar quem queira trabalhar na terra é complicado”, comentou. Ele afirmou que a tendência é de queda dos preços, mas que os valores não voltarão a patamares tão baixos quanto em anos anteriores.

“A área cultivada está diminuindo e a tendência também é que os agricultores que sobreviverem no mercado apostem em novas variedades em detrimento das atuais, como o tipo longo vida”, analisou.

 

Alta não resolveu os problemas dos produtores

Mesmo com o preço elevado, os agricultores ainda contabilizam prejuízo com a queda de produtividade da lavoura de tomate.

O engenheiro agrônomo da Casa da Agricultura de Monte Mor, Geraldo Magela Ferreira, afirmou que houve uma perda de 20% até o momento. “Na safra de Verão, em virtude da concentração de chuvas na época de frutificação e variações bruscas de temperaturas, aconteceram problemas de abortamento de frutos, viroses e bacterioses. Há pelo menos 20% de perdas até agora”, apontou.

Ele afirmou que na safra de Inverno (cuja colheita acontece a partir de outubro) a expectativa é de cerca de 100 mil caixas e no Verão (colheita a partir de abril)de 250 mil caixas de 25 quilos.

“A média é de 2,5 mil caixas de 25 quilos por hectare”, disse. Ferreira salientou que o tomate ocupa a quinta posição em área cultivada no município. “A cidade tem também grandes áreas de cana-de-açúcar, grãos (milho e feijão), reflorestamento e tubérculos”.

O engenheiro lembrou que, para a implantação e manutenção de qualquer cultura, há cuidados pontuais que demandam adubação equilibrada, tratos fitossanitários e irrigação.

“Isso e mais uma mão-de-obra especializada cada vez mais difícil de encontrar na região.

Os aspectos dos tratos culturais, em conjunto, encarecem a produção do tomate em relação a outras hortaliças, menos exigentes. Ela é uma cultura de grande investimento”, explicou.

Ferreira afirmou que estima que 50 famílias de arrendatários produzam tomate na cidade - número que, segundo ele, varia ano a ano.

O coordenador técnico de Desenvolvimento Tecnológico para a cultura do tomate no Brasil, da Seminis, Jorge Hasegawa, afirmou que o Brasil é um dos nove principais produtores mundiais de tomate, sendo que os tipos predominantes são dos segmentos salada redondo e Santa Cruz.

“Cultivares do segmento alongado italiano têm crescido nos últimos anos, assim como as especialidades do tipo minialongado. Entretanto, a diversidade de cultivares é tradicional no mercado de tomates, variando tanto em formato e tamanho quanto em cores e apelos visuais”, comentou.

Ele ressaltou que na região de Campinas, um dos mais importantes polos produtores de tomate do Brasil, os tipos varietais mais predominantes são o salada redondo, o italiano alongado e o Santa Cruz, seguidos por algumas iniciativas de minitomate cultivado em ambiente protegido.

Hasegawa ressaltou que o cultivo de tomate não está em crise, mas enfrenta muitos desafios relacionados às variações climáticas e à pressão de doenças e pragas. “Nos últimos anos, a pressão de novas doenças e pragas e as flutuações climáticas impactaram o potencial produtivo do tomate, diminuindo a oferta em determinados períodos do ano”, salientou.

O especialista apontou que a produtividade do tomate no Estado de São Paulo é uma das mais altas do País,entre seis a nove quilos de frutos por pé.

Colaborou Sheila Vieira

 

Escrito por:

Adriana Leite