Publicado 05 de Abril de 2013 - 18h10

Por João Nunes

Cena do filme de animação brasileira 'Uma História de Amor e Fúria', de Luiz Bolognesi

Divulgação

Cena do filme de animação brasileira 'Uma História de Amor e Fúria', de Luiz Bolognesi

Com direção e roteiro de Luiz Bolognesi, a animação brasileira Uma História de Amor e Fúria estreou nesta sexa-feira (5) em Campinas, apenas no Box Cinemas 6. O diretor respondeu a quatro questões feitas pelo Caderno C, do Correio Popular:

Caderno C — Como resolver a equação de fazer animação com temas políticos e chegar ao público?

Luiz Bolognesi — Com ousadia, inovação e coragem. Com o Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodanzky, 2001, do qual ele foi roteirista) foi a mesma coisa. Parecia impossível. Deu no que deu. Não faço o que o mercado espera. Sou artista, faço o que acho necessário. E o mercado vem atrás.

Que público você imagina que irá se interessar por seu filme?

Os jovens principalmente. Adolescentes de todas as idades. Dos 12 aos 92. Os universitários. Todos aqueles que duvidam da versão oficial. Todos aqueles que estão cansados de ver sempre o mesmo filme. Ouvir sempre a mesma história. São muitos.

Você não acha que, pelo excesso de didatismo, seu filme caberia mais no âmbito educacional que nas salas de cinema?

Não vejo excesso de didatismo. O filme tem ritmo. Prende o espectador. Tenho feito sessões com debates. O filme surpreende. As pessoas se emocionam. Muita gente vem falar comigo chorando. O filme não é didático. Você chama Lincoln (Steven Spielberg) de didático? Django Livre (Quentin Tarantino) é didático? Argo (Ben Affleck) você chamou de didático? Cuidado com o preconceito. Não querem que a gente coloque a história do Brasil na tela. Incomoda. Você é mais um desses?

O maniqueísmo do filme tira a humanidade dos personagens. Você concorda?

Acho que maniqueísta é a história que nos contaram até agora. Comemoramos com feriado o dia da missa que fundou o Rio de Janeiro sem desconfiar que a data esconde o holocausto dos tupinambás. Falamos muito do holocausto judeu, mas não sabemos do maior holocausto da história da humanidade que aconteceu aqui com as civilizações americanas. Construímos centenas de estátuas para Duque de Caxias sem saber quem ele derrotou em suas batalhas e porque. Como personagens maniqueístas? O herói é um covarde que entrega os companheiros de guerrilha. O herói no futuro é um jornalista que se acomodou e diz que desistiu de lutar, se acomodou com o privilégio de sua cota mensal de água e paga pelo amor de Janaína. Virou um canalha. Não sei que herói dos filmes americanos em cartaz apresenta tais sombras. Os revolucionários da Balaiada chacinam soldados pelas costas. Matam um cachorrinho fofo, justamente para mostrar a violência da revolta e criar um clima sinistro sobre o grupo. O responsável direto pela morte dos tupinambás é um cacique tupinambá, Piatã, interpretado por Rodrigo Santoro, que pôs sua ambição pessoal detona a tragédia. Justamente para mostrar que os índios não eram puros e bonzinhos. A heroína morre toda hora. O herói tenta se suicidar e não consegue. Se isso é didático e maniqueísta, não sei o que você tem a dizer sobre 'GI Joe – Retaliação' (Jon M. Chu), 'Ataque à Casa Branca' (Roland Emmerich), 'Oz, 'Mágico e Poderoso' (Sam Raimi) e todos os filmes que estão em cartaz, onde, como você diz, eu não deveria estar.

 

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João Nunes