Publicado 08 de Abril de 2013 - 21h34

Por Zeza Amaral

ZEZA

CEDOC

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Conheço malandros e otários. Conheço malandros-otários e otários-malandros. Viver o mundo do futebol, reduzindo-o a isso mesmo ao o que ele é, um jogo de malandros, é entender Garrincha ameaçando sair pela direita e fazendo exatamente isso. Quem viu, sabe e não falo mais sobre isso.

A cartolagem não tem a mesma competência e precisa usar outras artimanhas para lavar o dinheiro do contrato, driblando o Fisco, a moral e os bons costumes. João Havelange fez isso com maestria durante décadas e até virou nome de estádio, ora veja. Já Mané Garrincha, tão ou igual a Pelé, não pode virar nome de estádio.

O bom meio-campista inverte o jogo com maestria, lançamento de quarenta metros, Gérson, Rivelino, Didi – meu Deus, quanta precisão e elegância —, e no mínimo consegue arrancar do distinto público um aplauso pela intenção do mágico passe, traçado sem régua e compasso, apenas com o fio de prumo do pé, invisível como o vento de uma tarde domingueira ou com o sereno da noite de uma quarta-feira.

José Maria Marin, presidente da CBF, cleptomaníaco de carteirinha e medalha, agora é acusado de cumprimentar alguém com o chapéu alheio: disse que toda a renda de Brasil e Bolívia seria entregue aos pais do menino Kevin e não era nada disso. José Maria Marin, quando deputado estadual, acusou o governo paulista de manter um “comunista” na TV Cultura e, dias depois, o editor de jornalismo da emissora estatal, Vladimir Herzog, seria preso e assassinado pelo Dops.

Vladimir era apenas um competente jornalista, profissionalmente independente, e muito bem informado sobre os propósitos ditatoriais de alguns grupos subversivos que afirmavam lutar contra a ditadura militar (lembra disso, presidente Rousseff?) e assim restaurar a democracia.

Vladimir Herzog foi preso pela ditadura e nenhum “guerrilheiro” (e aqui vão aspas desqualificativas, devo dizer) escreveu uma carta sequer contra a sua prisão. Pelo contrário, naquele ano distante eles já estavam tratando de discutir com a já combalida ditadura militar uma anistia geral, ampla e irrestrita. Era um jogo de cartas marcadas e todos sabiam o que iriam ganhar: os milicos, o sossego do pijama; e os comunistas as gordas pensões e indenizações pela sua militância que, segundo Millôr Fernandes, tratou-se de “investimento”.

O Brasil pentacampeão do mundo tem jogadores que bem podem honrar o futebol da Suécia, do Chile, México e nem me preocupo mais em saber onde ganhamos as demais copas. Envelheci e renovei minhas expectativas; hoje sou espectador das minhas próprias ilusões, ao jogo das palavras e das dúvidas morais que boleiros e cartolas se me apresentam, sem contar com a ingênua participação de torcedores fundamentalistas que tanto encantam os marqueteiros do planeta, os verdadeiros donos do grande circo da vida, da grande indústria do passatempo.

Saudosistas dizem que o futebol mudou. Mudou nada. A bola continua redonda e atrapalhando os pernetas; e os bons do circo da bola são cobrados ingênua e politicamente para se posicionar contra a corrupção, como Juca Kfouri acabou de fazer com Neymar, por exemplo; e eu só posso dizer que eles são apenas um bando de jovens tentando sobreviver jogando bola, assim como ele, Juca, sobrevive escrevendo sobre... futebol!, essa fábula que nunca teve e jamais terá uma moral que a explique. Pelo visto, apenas pela polícia mais próxima.

Escrito por:

Zeza Amaral