Publicado 07 de Abril de 2013 - 5h00

RUBEM ALVES

Cedoc/ RAC

RUBEM ALVES

Eu estava com a cabeça quente. Queria descansar, parar de pensar. Para parar de pensar nada melhor que trabalhar com as mãos. Peguei minha caixa de ferramentas, a serra circular e a furadeira e fui para o terceiro andar, onde guardo os meus livros. Iria fazer umas estantes. As tábuas já estavam lá. Nem bem comecei a trabalhar de carpinteiro e fui interrompido pela faxineira que chegou. Com ela, sua filhinha de 7 anos, Dinéia. Carinha redonda, sorriso mostrando os dentes brancos, trancinhas estilo afro. O que se era de esperar numa menina na idade dela era que ela ficasse com a mãe, porque eu era um estranho. Não ficou. Preferiu ficar comigo, vendo o que eu fazia. Por que ela fez isso?

Ficou comigo por causa da CURIOSIDADE.

Curiosidade é uma coceira que dá nas ideias... Aquelas ferramentas e o que eu estava fazendo a fascinavam. Ela queria aprender.

“O que é isso que você tem na mão?”, ela perguntou. “É uma trena”, respondi.

“Para que serve a trena?, ela continuou.

“A trena serve para medir. Preciso de uma tábua de um metro e vinte. Assim, vou medir um metro e vinte. Veja!” Puxei a lâmina da trena e lhe mostrei os números. Ela olhou atentamente. “Você já sabe os números?”, perguntei. “Sei”, ela respondeu. Continuei: “Veja esses números sobre os risquinhos. O espaço entre esses risquinhos mais compridos é um centímetro. Um metro tem cem centímetros, cem desses pedacinhos. Veja que de dez em dez centímetros o número aparece escrito em vermelho. Para facilitar, os centímetros são amarrados em pacotinhos de dez. Um metro é feito com dez pacotinhos de dez centímetros. Um metro e vinte são dez desses pacotinhos, para fazer um metro, mais dois, para completar os vinte centímetros que faltam”. Marquei um metro e vinte na tábua com um lápis e me preparei para riscar a tábua.

Peguei um esquadro. “O que é isso?”, ela perguntou.

“É um esquadro. O esquadro serve para se fazer um risco bem certo. Se eu não usasse o esquadro o risco poderia ficar torto e a estante ficaria feia.”

Risquei a tábua e peguei a serra.

“O que é que você vai fazer?” “Vou cortar a tábua no tamanho que medi. Essa máquina é uma serra circular. As serras são lâminas de ferro com dentes. Os dentes servem para cortar. Há lâminas retas que se chamam serrotes. E há as serras redondas. Circular quer dizer redondo. Veja essa roda de metal cheia de dentes.” Ela olhou, curiosa.

“Quando eu apertar esse botão a eletricidade entra no motor, o motor gira fazendo essa roda com dentes pontudos girar também. Girando, os dentes passam na madeira e cortam a tábua. Se eu não tivesse uma serra elétrica teria de usar o serrote. Mas então, ao invés de usar a eletricidade eu teria de usar a minha força. E eu ficaria cansado. As máquinas servem para a gente fazer menos força.”

“Por que é que a eletricidade faz o motor rodar?, ela perguntou. Aí, meio atrapalhado, eu lhe disse: “Eu sei que a eletricidade faz o motor girar. Mas eu não sei por que é que ele gira...”

Dito isso coloquei a tábua sobre uma cadeira, peguei a serra, pus no lugar e apertei o gatilho. A serra girou, entrou na madeira e aconteceu o barulho.

Ela não se assustou. E assim ficamos os dois, a Dinéia completamente esquecida de sua mãe, totalmente fascinada por aquilo que eu estava fazendo.

Estava completamente concentrada...

Não precisei motivá-la a nada. Não pedi que ela prestasse atenção porque ela queria prestar atenção.

Enquanto trabalhava e conversava com a Dinéia lembrei-me de Joseph Knecht, o mestre supremo da ordem monástica “Castália”, do livro de Hermann Hesse O Jogo das Contas de Vidro. Velho, ao final de sua carreira, no topo da hieraquia dos saberes, havendo galgado todas as posições que seria possível galgar, ele se viu acometido por um enfado sem remédio com tudo aquilo e passou a sentir uma grande nostalgia: queria descer da sua posição para fazer uma coisa muito simples: educar uma criança, uma única criança, que ainda não tivesse sido deformada pela escola. Sim, deformada... Pois ali estava eu, vivendo o sonho de Joseph Knecht: eu estava ensinando uma menina que ainda não fora deformada pela escola. Sua inteligência estava iluminada por essa coceira que se chama curiosidade...