Publicado 07 de Abril de 2013 - 5h00

Moacyr Castro

AAN

Moacyr Castro

Em quatro dias, dois passageiros, um em Campinas, outro no Rio de Janeiro, brigam com os motoristas dos ônibus em que viajavam e juntos mandam dez pessoas para o céu. Bons tempos em que todos obedeciam à famosa plaquinha “Não fale com o motorista”. Havia até piadas, não fôssemos brasileiros, o povo que vaia até minuto de silêncio. Em Londres, a plaquinha revela a fineza do inglês: “Por gentileza, não converse com o motorista”; em Portugal, “Só fale com o condutor após descer do autocarro”; na Alemanha, “Cale-se diante do motorista!”; em Israel, “O que você ganha se falar com o motorista?”.

Não era uma cordialidade igual à vivida nos bondes. Mas aconteciam boas histórias. Aquela chuva que Deus mandava e o pacote de gente das 18h30 rangia para subir a Andrade Neves rumo ao Castelo. Porta aberta para aliviar o calor. Uma senhora, encapada e ensopada, grita da calçada: “Que ônibus é esse?”. O motorista se empombou: “Mercedes Benz!”. O ‘coletivo’ Vila Marieta-Taquaral era enorme – por fora. Subi os degraus, bati a cabeça no teto, e chiei: “Tão grande, tão baixinho!”. O cobrador não ia perder a chance: “Foi feito para pessoas normais...”.

No da Swift, o garoto puxou a cordinha da direita, não tocou; a da esquerda, também não. Mas obedeceu à plaquinha. No ouvido do motorista, fez “trrriiimmm”. Foi aplaudido.

A volumosa mulher do coronel não estava drogada nem bêbeda ao embarcar no ‘Cometão’, em São Paulo para Campinas. Mas abusando da patente do marido, queria ser dona do mundo. Perto de Jundiaí, o motorista encostou e veio à poltrona dela, bem à frente da minha. Viajávamos na fila da esquerda, ela na janelinha, aberta:

-- Minha senhora, por gentileza, pode amarrar a cortininha da sua janela? É que, solta, ela atrapalha minha visão da estrada pelo retrovisor.

-- Ora, o senhor faça o favor de não me incomodar! Não vou amarrar nada e ande logo porque estou com pressa.

O motorista Ary, conhecido da maioria dos passageiros, humilde como ele só, resmungou, sem perder o bom-humor:

-- Com tanta educação, sou capaz de terminar a viagem em meio minuto, senhora!

-- O senhor sabe com quem está falando? Sou casada com o coronel fulano!

Mesmo em plena ditadura, tomou uma vaia... E olha que o coronel fulano era bonachão, gentil e boa praça, sem ter sido pracinha.

Numa noite, já na frente do quartel do velho 8º BC, pouco antes de entrar no viaduto Miguel Cury, o motorista foi surpreendido com uma ordem tão arrogante quanto inusitada:

-- O senhor vire à direita aí na Sete de Setembro, volte e pegue a Salles Oliveira.

-- Não posso, tenho de cumprir o itinerário até a Campos Salles.

-- Quem decide sou eu! Estou pagando e você vai levar até onde eu quiser...

O motorista deu a volta pela Sete, tomou a João Jorge de novo e entrou no quartel:

-- Mande um soldado levá-lo até a Salles Oliveira, de camburão.

Pregado no poste: “Pó naquelas ‘viagens’, só o das estradas”