Publicado 05 de Abril de 2013 - 21h30

Colunista José Ernesto

Divulgação

Colunista José Ernesto

“Você aceita dar aulas práticas de biologia no COC?”.

Essa pergunta me foi feita pelo Laertel Fassoni, meu ex-professor de botânica, em março de 1965, na esquina da Única, onde se reuniam no início de noite os acadêmicos de medicina. Eu havia deixado o cursinho como aluno há cerca de dois meses. Junto comigo, Brasil Salim Mellis e Gilberto Lima Junqueira, e posteriormente com a saída deste último, Ricardo Brandt de Oliveira, demos aulas práticas de biologia, química e física.

Fui professor de biologia por oito anos numa época que entre nós não havia a ideia de expandirmos nossa atividade para o âmbito profissional, nem como professor ou como empresários. Creio até que existia certo preconceito com a ideia de continuar dando aula no cursinho depois da graduação. Sendo um pouco mais crítico, achoa que mesmo antes dela. Dávamos aulas até a formatura e depois nosso investimento passava a ser o cuidado com a especialização médica.

Dei aulas práticas por três anos e depois substituí o Roberto Passeto Falcão por cinco anos nas aulas teóricas de Citologia, Genética, Ecologia e Evolução. Lembro-me de um fato interessante, impensável e inaceitável nos dias atuais: aceitei “o emprego” de professor sem perguntar qual seria o meu salário. Quando fui receber o primeiro pagamento, imaginei que receberia algo ao redor de 30 unidades monetárias da época, mas qual foi minha surpresa ao receber um cheque de 70.

A outra inesperada surpresa foi quando fui ao banco trocar o cheque de meu salário e a funcionária educadamente me sugeriu que abrisse uma conta. Saí da agência do Bradesco na Rua São Sebastião, em frente do Cine São Paulo, com algum dinheiro no bolso e um talão de cheques! Senti-me milionário. Em reconhecimento, me dei de presente uma camisa “Volta ao Mundo” (você se lembra delas?), que comprei em uma loja localizada quase em frente ao banco que, salvo engano, chamava-se “Ao Camiseiro”.

A experiência de professor de cursinho foi extraordinária. Trabalhávamos ensinando jovens com grande interesse em aprender e que conviviam com o estresse constante e cruel do vestibular. O COC era uma empresa socializada, entre os onze sócios, a participação nos lucros era igualitária. Todas as tarefas eram divididas. Guardo comigo o livro das atas das reuniões administrativas que realizávamos todas as sextas-feiras após as 23h. Essa reunião precedia outra muito interessante que se seguia, em um restaurante na Avenida Saudade, chamado “Os três garçons”.

Releio às vezes esse livro, e vendo a evolução da instituição de ensino originada do nosso sistema primitivo, vou sempre da nostalgia ao riso. É muito curioso que não fazíamos nenhum plano de investir em algo que fosse perene. Tudo era passageiro. Sou questionado com alguma frequência sobre o motivo pelo qual deixamos uma atividade tão lucrativa. A explicação é simples: somente no final ou meados dos anos 70 houve a real mudança na visão dos cursinhos.

Tenho comigo que o João Carlos Di Gênio, proprietário do Curso Objetivo, foi o precursor dessa mudança e a com ela a “casa de ensino” passou a ser vista também com visão empresarial. Uma mudança importante nos vestibulares e que determinou modificação no corpo docente e na sociedade ocorreu em 1967-69. Foi quando começou a unificação dos vestibulares, que passaram a incluir nos exames vestibulares português, inglês e matemática.

Nestes anos foram criados três sistemas de vestibulares: CESCEM (vestibulares para as áreas biológicas), CESCEA (1967, vestibulares de faculdades de ciências humanas) e MAPOFEI (1968, vestibulares de faculdades de ciências exatas). Ao grupo inicial foram contratados Ronaldo Zulian (médico em Campinas) para o curso de Inglês e Lourival Lautenschlager (médico em Araçatuba) para português.

Foram substituídos posteriormente pelo saudoso Cláudio Roberto Carvalho Rodrigues e pelo Marco Antonio Zago. A eles se associou Milton Cesar Foss para o curso de matemática. Com a formatura de outros membros da primeira geração, passaram a fazer parte do grupo Fernando Nobre, Rubens Garcia Rico, Roberto Tiraboschi, Aguinaldo Simões, Amir Kalaf, Benedito Carlos Maciel, Fernando Ferreira Costa e Roberto Silva Costa, todos acadêmicos de segundo e terceiro anos de medicina.

Essa geração também fez grandes inovações. Talvez a maior tenha sido a criação oficial do curso colegial, pois até então os cursinhos eram produtos de uma necessidade, mas sem uma estrutura fiscal e jurídica consolidada. Creio que processo semelhante vem ocorrendo hoje com os cursinhos preparatórios para os exames de residência médica. Pela evolução que eles vêm tendo, pergunto-me às vezes se eles terão a mesma evolução dos cursinhos preparatórios para os vestibulares.

Criamos inicialmente o terceiro colegial integrado ao cursinho e posteriormente, numa associação com o Colégio Duque de Caxias, da Associação de Ensino, o primeiro e segundo colegiais. Ainda é criação de nossa geração a introdução da logomarca do COC, que vemos hoje por todos os lados e que ainda mexe com minha emoção.

Deixei o COC em 1972, transferindo minha participação na sociedade para o também saudoso João Alvares da Costa, que fora meu professor de química no curso colegial. Vejo nesta transação uma das primeiras inversões clássicas do capitalismo na nossa sociedade, pois o João era químico industrial e professor. Não era acadêmico de medicina, embora profissional de ensino. A partir de 1974 as participações societárias do COC foram adquiridas pelo Sr. Miguel Cury e nesta transição existe a real mudança da visão de uma entidade quase amadora de professores-sócios, para uma sociedade de um investidor, que não tinha participação didática no sistema.

Recentemente me perguntei: por que um fazendeiro, que se via envolvido com plantação de cana e criação de gado iria se interessar em investir em uma unidade de ensino? Em entrevista que fiz com a Sra. Rada Cury, irmã do Sr. Miguel, entendi, com pouca chance de errar, que o incentivador dessa mudança foi o saudoso amigo André Rivalta de Barros, advogado, que já em anos anteriores nos auxiliava em vários aspectos legais e burocráticos do cursinho e que se tornara proprietário de uma percentagem do COC. Amigo de Miguel Cury deve tê-lo influenciado a investir nesse novo ramo.

Não por coincidência o Miguel tinha ainda uma irmã, a Sra. Rada Cury, com experiência em ensino em sua cidade natal. Por volta de 1976 o “cursinho”, até então propriedade de um grupo de acadêmicos de medicina, passou a pertencer totalmente a Miguel Cury, André Rivalta de Barros e João Alvares da Costa, e posteriormente somente ao primeiro. O corpo docente deixa de ser formado por acadêmicos de medicina e passa definitivamente a ser formado por profissionais da área de ensino.

Durante cerca de dez anos, a família Cury administrou e deu ao COC características de uma sociedade profissional de ensino. Buscou professores renomados em outras cidades da região e aumentou sobremaneira o número de estudantes em suas salas de aulas. Em 1985-86 o COC foi adquirido pelo grupo do Sr. Chaim Zaher. Hoje o COC tem cerca de 40 unidades por todo o Brasil, cobre o ensino do pré-primário até a pós-graduação presencial e a distância. De pouco mais de algumas centenas de alunos que tínhamos nos anos 60-70, o COC tem hoje mais de 80 mil. O mais otimista dos meus colegas dos grupos iniciais fundadores do COC jamais imaginaria essa evolução.

Outro aspecto interessante que merece ser comentado é que das primeiras gerações de acadêmicos professores do COC, pelo menos 16 seguiram carreira acadêmica tornando-se docentes da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP. No cursinho, não tenho dúvida, fomos picados pela “mosca da docência” e creio ser essa picada transmissora de uma doença incurável.