Publicado 07 de Abril de 2013 - 5h00

Por Helio Paschoal

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Um belo dia, o consumidor brasileiro vai acordar para o fato de que tem um poder muito maior do que pensa: o de derrubar preços.

Um exemplo bastante claro de como esse poder não é usado é o do tomate, esse inocente fruto que de repente começou a ser taxado como o maior vilão da inflação.

O tomate, coitado, não tem culpa de nada: ele, como qualquer outro produto que vem da terra, depende de condições climáticas favoráveis para poder florescer. Se essas condições falham, como falharam nos últimos meses, a produção despenca - e o preço dispara.

Essa é uma regra básica do mercado: se há oferta abundante, não se pode cobrar caro; se a oferta escasseia, o valor se torna maior.

Mas há um terceiro elemento a ser considerado nessa equação, que o consumidor brasileiro ainda desconhece: o de que, sem demanda, os preços também caem - mesmo com oferta menor.

É simples de entender: se a produção e a oferta diminuem, mas a demanda cai, a pressão sobre o valor diminui, porque há um novo equilíbrio - menos produto, mas com menos gente comprando, equivaleria a ter mais daquele produto disponível - ou seja, a mais oferta. E se há mais oferta, os preços diminuem.

Se, ao contrário, a demanda continuar igual à que era quando havia oferta abundante, os preços inevitavelmente subirão.

O problema é que pouca gente se dispõe a abrir mão de um produto, mesmo que seja tão dispensável quanto o tomate, que não exige sacrifício algum em ser colocado de fora da mesa por algum tempo; ninguém vai comprometer a qualidade da sua alimentação se parar de consumí-lo.

Mas falta ao consumidor brasileiro essa noção de que não está sozinho. Aqui, como em muitas outras coisas, ele acha que é apenas ele que estaria agindo ao deixar o tomate na gôndola e que, portanto, tanto faz deixar de comprá-lo ou não. Não é por isso, acredita, que o preço vai cair.

Só que é justamente o contrário: é exatamente por isso que o preço vai cair. Não porque ele sozinho deixou de comprar o produto, mas porque milhares de outros consumidores também deixaram de fazê-lo.

Com isso, a demanda despenca - e aí, ou os preços se tornam mais palatáveis, ou o produto estraga nas prateleiras. E prejuízo por prejuízo, quem vende vai sempre preferir o menor que puder ter - mesmo que isso signifique cortar a quase zero sua margem de lucro, pelo simples fato matemático de que um lucro de quase zero é ainda melhor do que lucro nenhum.

O nó da questão é esse vício que temos de nos acharmos sempre sozinhos, de que não adianta nada tomar uma atitude porque ninguém mais irá fazê-lo. É o mesmo nó que existe, por exemplo, no sujeito que joga lixo na rua porque acha que isso não faz a menor diferença para ninguém, ou de quem não economiza recursos preciosos como a água pelo mesmo motivo.

Mas estamos falando de comportamento e de consumo de grupo - e grupos, por definição, são formados por indivíduos. Um indivíduo, de fato, pode não fazer diferença - mas se todos os indivíduos pensarem assim, nunca nada mudará.

Como as coisas mudam, é de se supor que pelo menos uma parte desses indivíduos não é adepto da crença do “tanto faz”; há quem se importe, há quem proteste, há quem siga regras mais sensatas - e que ao fazê-lo é capaz de influenciar os outros que não se importam, nem protestam nem sejam sensatos.

É um raciocínio que há alguns anos poderia soar utópico. Mas é porque há alguns anos não existiam coisas como internet e redes sociais. Se antes era quase impossível pensar num movimento bem coordenado de consumidores protestando contra um produto ou um serviço, hoje é a coisa mais fácil do mundo fazê-lo. E cá entre nós, entre tantas mobilizações inúteis que se veem todos os dias na rede, uma de consumidores contestadores seria algo realmente interessante de se ver.

Interessante e provavelmente efetivo. Imagine um movimento de boicote à compra de um produto cujo preço, de repente, tenha explodido. O que você, caro leitor, acha que aconteceria se milhares ou até milhões de pessoas passassem não apenas a deixar de comprá-lo, como ainda a estimular mais e mais gente a fazer o mesmo para protegerem seus próprios bolsos?

Pois é este poder que o consumidor tem, e ainda não percebeu: o poder de dizer não, de se revoltar, ainda que da forma mais pacífica possível, contra abusos de preços.

É uma ideia que já existe na internet em relação à qualidade de produtos e serviços - são incontáveis os casos de pessoas que nunca tiveram sequer uma resposta de serviços de atendimento ao consumidor ou ouvidorias, mas que foram quase que imediatamente atendidas assim que postaram suas queixas em redes sociais ou em sites especializados.

Não é nenhum milagre, é simples exercício de consciência dos próprios direitos. Não é utopia, é fato. E não é sequer difícil, é meramente uma questão de alterar a reclamação individual por um movimento coletivo.

Ainda podemos estar longe das mobilizações de protesto contra abusos de preços, mas uma hora ou outra esse elas vão acabar aparecendo, assim como apareceram as queixas contra defeitos ou atrasos em entregas de produtos.

E quando isso acontecer, ai dos tomates da vida: eles terão que ficar mais baratos. Ou apodrecer.

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Helio Paschoal