Publicado 08 de Abril de 2013 - 11h43

Reportagem especial mostra detalhes do mercado do sexo de Piracicaba

Del Rodrigues/Gazeta de Piracicaba

Reportagem especial mostra detalhes do mercado do sexo de Piracicaba

Assim como o título dessa matéria, a vida da garota de programa Karina (nome fictício) se parece muito aos castelos de areia feitos na praia onde um sopro de vento destrói tudo sem deixar rastros. “Não tenho ilusões de uma vida diferente porque sei que isso é impossível. Não tem mais volta. Eu quis ser vagabunda e esse é o meu destino”. Apesar de ainda ter 30 anos, ela revela que o caminho que escolheu matou todos os seus sonhos, como a vontade de casar de véu e grinalda numa igreja. “Não me arrependo de nada do que fiz porque eu quis viver isso e vivi essa história com toda força desse mundo”.

Karina diz não ter ilusões sobre o seu futuro. Acredita que ficará para sempre marcada pela sua escolhaKarina diz não ter ilusões sobre o seu futuro. Acredita que ficará para sempre marcada pela sua escolha

O relato de Karina, totalmente desprovido de máscaras, disfarces ou medos se assemelha muito ao de Raquel Pacheco, a “Bruna Surfistinha”, ex-prostituta brasileira, que se tornou conhecida nacional e até internacionalmente por manter um blog na internet onde descrevia suas aventuras como prostituta. Sua história real de vida foi contada em livros e depois levada para os cinemas. Na página ao lado, Raquel, que agora é DJ, fala com exclusividade com a Gazeta sobre sua vida durante os anos em que viveu como prostituta.

No caso de Karina, ela aceitou falar sobre sua vida na prostituição desde que a identidade verdadeira fosse preservada, mas apenas para evitar atritos familiares, já que nunca teve problemas em assumir sua condição. “Sempre joguei aberto com todo mundo. Não tenho problema em falar que sou prostituta. Não me envergonho de algo que eu quis ser”.

Segunda-feira, 11 da manhã. Um prédio residencial no Centro de Piracicaba. Karina recebe a reportagem de cara limpa e sem maquiagem. Descalça, cabelos amarrados num coque e vestindo um macacão jeans, que revela parcialmente seu corpo. Mãe de três filhos, mora com apenas dois deles: um menino de sete anos e uma garota de três anos. A mais velha, de 13, vive com os avós paternos. “Dou tudo para os meus filhos, mas não tenho paciência. Sou muito irritada. Acho que fiquei assim por causa das drogas”.

Sua entrada na prostituição aconteceu após o fim do primeiro relacionamento, que resultou também na primeira gravidez. Ela tinha 17 anos e diz ter casado por imposição da família, mas confessa que odiava o marido. A separação aconteceu dois anos depois e ela voltou a sair com as amigas. Numa destas saídas conheceu uma garota (já falecida)na Rua do Porto. “Ela falou que eu era bonita e atraente. Disse que eu podia ganhar muita grana se fizesse programa. Como eu não tinha nada a perder, aceitei. Esse convite mudou toda minha vida”.

Ela mudou-se para uma boate em Mogi Guaçu, os conhecidos “inferninhos”, nos quais garotas trabalham para cafetões (agenciadores) fazendo programas sexuais em troca de alimentação e hospedagem. Dois dias depois de sua chegada na “casa” ela fez dois stripteases, além do primeiro programa. “Foi horrível e chocante. Ele era policial e devia ter uns 30 anos. Era bonito e atraente, mas eu não me senti à vontade. Não teve química. Só fiz mesmo pelo dinheiro”.

Depois da primeira transa, diz que passou a semana toda fazendo programas, já que as novatas “devem mostrar serviço” nos primeiros dias. Nestes casos, quem transar mais ganha pontos preciosos com os cafetões. As doses de bebidas que os clientes pagam a elas (sempre induzidos pelas meninas), também geram lucro adicional no final do mês. “Ganhei muito dinheiro, mas me envolvi com drogas. Tudo o que eu ganhava, gastava ali”. Após sete meses, voltou para a casa dos pais em Piracicaba e mudou o “foco” do trabalho. Ao invés de atender os clientes em uma casa de shows, ela colocava anúncios nos jornais. Ficou um ano trabalhando desta forma e depois se mudou para uma nova boate em Jaguariúna, onde permaneceu por mais seis meses.

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Destino

Nos últimos dez anos, Karina passou por diferentes casas, engravidou duas vezes (de homens diferentes), sendo que um deles batia muito nela. Também abortou um filho. Ela diz que até tentou mudar de vida trabalhando em um salão de cabeleireiro e também em um bar que montou ao lado de uma amiga, mas nenhuma das tentativas deu certo porque sempre recaiu nas drogas e na prostituição.

O que a fez limitar o número de programas foi quando um dos seus clientes tentou forçá-la a transar sem preservativo. “Eu me senti um objeto e decidi que dali por diante só faria programas por muito dinheiro. Bateu o medo de pegar uma doença também”.

Hoje, ela vive da pensão dos ex-maridos. Um deles, está preso. Ainda faz programas, mas geralmente com clientes antigos. “A prostituição é algo viciante. É um dinheiro fácil de ganhar. Basta deitar numa cama e fingir o orgasmo”. Karina conta que perdeu a conta de quantos clientes teve. Alguns ela se apaixonou, mas as paixões não seguiram adiante. “Não era para ser. Não crio ilusões sobre nada. Apenas vivo um dia por vez “.

Segundo o delegado da 6° DP de Piracicaba, Ruy Luiz Ramires, a prostituição não se caracteriza como crime, exceto quando os envolvidos têm problemas com drogas, aliciamento de menores, furto ou roubo. “Nestes casos, a polícia tem obrigação de autuar e investigar a denúncia, mas não prendemos uma pessoa por ser prostituta”. Pela legislação brasileira, a prostituição se transforma em crime quando são praticados atos obscenos, importunação ofensiva ao pudor, favorecimento à prostituição ou tráfico internacional de pessoas (assunto muito discutido atualmente no Brasil por causa da novela Salve Jorge -TV Globo-, que tem esse tema como o mote principal da trama).

Dinheiro fácil na busca de sonho

“ Fabyula” tem 22 anos. Apesar de ter nascido em um corpo de homem, é vestido de mulher e com esse apelido que ganha a vida. “Essa foi a minha maneira de atrair mais clientes e ganhar dinheiro”. Ele diz que sonha em juntar dinheiro para fazer a mudança de sexo. Até lá, continuará se prostituindo como travesti.

Aos 12 anos, Fabyula revelou para a família que era homossexual e dois anos depois saiu de casa. Em seguida, já estava na rua se prostituindo. “Fui para a casa de uma cafetina em Campinas e foi lá também que conheci a droga. Cheguei a ser preso por três anos, mas me livrei das drogas, não dos programas”.

Hoje, trabalha como voluntário em uma ONG e, à noite, faz programas. A mãe e o padrasto desconhecem sua atividade. Ele só sai com homens. Os clientes, geralmente, são casados e os programas custam R$ 70. “Eu nunca me senti homem, mas se o cliente pedir faço o papel de ativo. Isso é o que mais acontece”.

Fabyula sonha um dia em montar seu salão de cabeleireiro. Enquanto isso, continuará realizando as fantasias das pessoas. “Estou nessa vida só pelo dinheiro”. 

Vida de garoto de programa

A prostituição masculina também é mais comum do que se imagina em Piracicaba. O “dinheiro fácil” foi o que atraiu “Daniel”, 33 anos, para a profissão. Ele conta que estava andando a pé, no Centro, quando foi abordado por um rapaz, que lhe deu um cartão. “Era uma agência de garotos de programa. Eles conseguiam os clientes e a gente dividia o lucro”.

Com o tempo, ele viu que trabalhar para agenciadores o limitava e decidiu seguir sozinho. Atualmente coloca anúncios no jornal e diz que é muito requisitado por homens e por mulheres. “Não sei quando sairei desse mundo porque não posso negar que é lucrativo, mas sonho em encontrar alguém e ter meus filhos”.

Sem saber que estava sendo entrevistado para uma matéria, um cafetão de Piracicaba confirmou que agencia tanto garotos como meninas e que para entrar nesse “mercado”, basta estar disposto a se jogar sem pudor ou preconceito porque o lucro é garantido.