Publicado 07 de Abril de 2013 - 5h00

Posse do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama

Cedoc/RAC

Posse do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama

Recentemente, circulou nas redes sociais a imagem de um “contrato” feito entre pai e filha em que a garota de 14 anos se compromete a desativar sua conta no Facebook e passar quase cinco meses sem acessar o site. Em troca, a adolescente receberia cerca de R$ 400. “Ela quer ganhar dinheiro e também acha que o Facebook seria uma distração e, muitas vezes, uma perda de tempo”, disse o pai, Paul Baier, em entrevista ao DailyDot.com.

 

Ele, vice-presidente de uma empresa de energia nos arredores de Boston, nos Estados Unidos, postou a foto do documento, que foi ideia da filha, em seu blog. O caso foi noticiado mundo afora e a medida suscitou o inevitável questionamento: estamos passando muito tempo conectados à web? Será preciso monitorar a maneira de utilizá-la ou, quem sabe, dar uma pausa e encarar uma detox digital?

 

O Brasil já tem o segundo maior número de usuários cadastrados no Facebook (são 65 milhões de pessoas), atrás apenas dos Estados Unidos. Dados de uma pesquisa da ComScore, publicada em fevereiro no The Wall Street Journal, revela que o tempo que os brasileiros passam conectados ao site criado por Mark Zuckerberg cresceu 208% em 2012, o que significa que nós ficamos 535 minutos por mês navegando pela rede social – a média mundial foi de 361 minutos.

 

Posse do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama

Posse do presidente reeleito Obama este ano

Os usuários daqui também passaram 41% mais tempo no Twitter em 2012. Não à toa, o título da reportagem do WSJ é Brazil: The Social Media Capital of the Universe (Brasil, a capital universal das mídias sociais, em tradução livre).

 

Será que você se encaixa nesse número? Já parou para contar quantas vezes confere atualizações nas redes sociais ou checa sua caixa de e-mails? Bate uma ansiedade ou um desconforto quando fica um tempo sem conexão? Talvez não se enxergue nessa descrição, mas, com certeza, conhece ao menos uma pessoa que seja assim. É preciso cuidado. Porque, segundo alguns especialistas, diferentemente do que muita gente pensa, a web gera dependência, sim.

 

"Tratamento eu?!"

 

O vício em internet já é visto como tal, como uma dependência. Embora ele ainda não esteja no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), há indícios de que seja catalogado em uma próxima edição”, afirma a psicóloga do Programa de Dependência de Internet do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, Dora Sampaio Góes.

Ela é uma das autoras do capítulo Dependência de Celular, do livro Vivendo Esse Mundo Digital, em lançamento pela Artmed Editora.

 

De acordo com a especialista, a necessidade extrema de usar gadgets e acessar a rede está muito mais relacionada a uma questão interna do indivíduo do que com a ferramenta em si. “A solução não é, simplesmente, parar de utilizá-las, porque não é um vício químico, mas uma dependência comportamental”, explica a psicóloga. Essa dependência se manifesta como uma inabilidade do indivíduo em controlar o uso e o envolvimento crescente com internet e gadgets, o que conduz a uma perda progressiva de controle e a um maior desconforto emocional.

 

Dora, especialista  no assuntoPara Dora, porém, existem pequenas diferenças nos perfis dos viciados em internet e smartphones. “O dependente da web, geralmente, tem dificuldades em se relacionar socialmente, enquanto o viciado em celular busca uma aprovação social e, muitas vezes, mede seu valor pelos likes que recebe. Normalmente, este último é um sujeito ansioso”, avalia. Ainda de acordo com ela, a dependência em smartphones traz outros riscos, como bater o carro, quando a pessoa utiliza o aparelho dirigindo, ou incomodar quem está por perto em locais como salas de cinema. “Perde-se o rigor do tempo adequado para utilizá-lo”, analisa.

Dora faz parte de um grupo de especialistas que oferece atendimento ambulatorial para os diagnosticados como dependentes de tecnologia. A abordagem é multidisciplinar e, após pré-triagem e avaliação feita por psiquiatra, o paciente recebe um plano terapêutico, que pode ser em grupo ou individual, com acompanhamento psicológico e psiquiátrico. “O tratamento ocorre em 18 semanas, dividido em etapas. Tentamos entender qual é a função que essa tecnologia tem na vida da pessoa e não pedimos que ela pare de utilizar a internet, mas que se monitore”, informa. Ou seja, não adianta ficar alguns dias longe do smartphone e das redes sociais, numa medida extrema, se, quando voltar a usá-los, o indivíduo continuar fazendo isso de forma exagerada e desregrada.

 

“Uma coisa é quando é necessário executar algo do trabalho, conversar com o namorado, isso é normal. Agora, se fico conectado sem estipular um tempo, abandonando esportes, trabalho e família para navegar na internet, isso é preocupante. É preciso haver limite”, pondera. 4

 

"A primeira coisa que faço é..."

Júlio C. Borges, ilustrador e social media O diretor de criação, ilustrador e social media Júlio C. Borges, de 29 anos, se encaixa no perfil dos jovens que dormem mal. “De uns dois anos para cá, tenho me tornado mais ansioso. Sofro de insônia, precisei fazer exames de sangue, monitorar a arritmia cardíaca etc. E tenho o agravante de trabalhar com publicidade e redes sociais. Acordo às oito da manhã e vou dormir às três da madrugada, passo 19 horas conectado, meu iPhone fica ligado ao meu lado enquanto durmo. A primeira coisa que faço quando levanto é olhar o celular”, conta. 

 

Há dois anos, ele percebeu mudanças no humor – antes de estar tão conectado, diz ele, era uma pessoa mais calma. “Confesso que tinha muito mais vida social on-line do que pessoalmente.

 

Agora que estou conseguindo quebrar isso, tento sair mais, parar para tomar um café. Quando passei a sofrer de insônia, depois de um check-up meus médicos concluíram que a causa vinha desse ritmo louco de estar conectado o tempo inteiro. Meu corpo estava respondendo ao que eu fazia com ele, pedia para parar um pouco, ter momentos para relaxar, não ficar naquela ânsia por responder e-mails, replys etc. Parei de ficar no celular durante o almoço. Estou me disciplinando”, relata Borges.

 

Apesar de não sofrer insônia, a social media Beatriz Morgado, de 23 anos, se considera totalmente viciada nos gadgets. “A primeira coisa que faço quando acordo é abrir o tablet e checar o celular, ver o que aconteceu enquanto eu estava dormindo. Depois é que vou escovar os dentes e tomar o café da manhã”. Hard user das redes sociais, ela confessa que prefere navegar por Facebook, Instagram, Twitter e Pinterest, entre outras, em vez de assistir TV ou ler uma revista.

 

Beatriz lembra que essa familiaridade com a rede foi determinante na conquista de seu primeiro trabalho na área de mídias sociais, em 2009. “Fui contratada por meio do Twitter. Acho que nessa área, na hora de contratar, os empregadores procuram alguém que esteja antenado. Todos os trabalhos que conquistei até hoje surgiram por meio de redes sociais”, conta. Ela diz que até tenta dar um tempo off-line em casa, mas a compulsão por acompanhar as atualizações é maior. “Se eu paro por um minuto e acho que estou entediada, já acesso algo. Sinto ansiedade de me comunicar.”

 

A social media, que recentemente mudou de emprego e enfrenta um novo desafio na área de marketing, morou um ano e meio nos Estados Unidos e lembra que tem uma boa desculpa para estar conectada full time: conheceu o namorado, um inglês, por lá. “Só converso com ele por Skype e redes sociais, por isso estou sempre com o celular. Nos falamos todos os dias, também

 

Que tal uma dieta de tecnologia?

Daniel Sieberg, autor de The Digital DietNum cenário em que boa parte das pessoas se sente dependente de gadgets e conexões, surgiu uma onda que prega a desintoxicação digital. A ideia seria passar um tempo longe – ou deixar de vez, se assim conseguir – dessas ferramentas tecnológicas, em especial as redes sociais, num esforço para livrar corpo e mente da ansiedade de conferir atualizações e compartilhar com o mundo o que se está fazendo, pensando, comendo... Só que é necessário ter cuidado com essa proposta, porque ela pode não surtir efeitos. 

Ao perceber que o vício em tecnologias estava afetando o convívio social, o jornalista canadense Daniel Sieberg decidiu se reeducar e escreveu o livro The Digital Diet (A Dieta Digital, ainda sem tradução por aqui). Em entrevista à Metrópole, ele fez questão de ressaltar que o que propõe não é um plano de desintoxicação, mas uma dieta. “É como a comida. Eu cozinho as melhores receitas, vou aos melhores restaurantes e encontro novos estilos para me adaptar, mas não vou me privar da comida.

 

Acontece o mesmo com a tecnologia. O livro traça um plano potencial para o leitor gerir sua utilização de forma saudável, de maneira que não se prejudique nem atrapalhe as pessoas à sua volta. Tudo começa na conscientização. Eu proponho alguns passos centrais, mas o mais importante é a mensagem que a obra traz: ame sua tecnologia, só não o faça incondicionalmente”, adverte. 4

 

Dicas do autor

1) Não carregue o telefone no quarto. Embora ele sirva como despertador, é muito tentador começar a navegar nele. Carregá-lo em outra sala não causará perda de produtividade e levará menos de um minuto para chegar até lá (entretanto, você pode preferir primeiro tomar um café ou conversar com sua mulher).

2) Evite manter o smartphone na mesa durante as refeições e nada de ficar checando atualizações a toda hora. Se você precisar deixá-lo ali por algum motivo, avise as pessoas o porquê: está esperando uma ligação importante, por exemplo. Se isso for realmente um problema para você e seu grupo e se estiverem em um restaurante, proponha que todos coloquem os aparelhos empilhados em um lugar da mesa. O primeiro que não resistir e pegar o seu telefone para acessar atualizações paga a conta.

3) Tente aproveitar o momento primeiro, antes de compartilhá-lo. Dispositivos móveis nos permitem postar e divulgar o que está acontecendo a qualquer momento, como em viagens e shows. Mas tente priorizar a ocasião e compartilhar depois, sem a necessidade de postar coisas a cada minuto.