Publicado 07 de Abril de 2013 - 5h00

Por Vilma Gasques

Isabela Gava brinca de boneca em meio à sua coleção de sutiãs: puberdade iniciada aos 8 anos foi adiada com tratamento para evitar a menstruação

Janaína Maciel/Especial para a AAN

Isabela Gava brinca de boneca em meio à sua coleção de sutiãs: puberdade iniciada aos 8 anos foi adiada com tratamento para evitar a menstruação

A transição entre a infância e a vida adulta é considerada uma das fases mais complexas do desenvolvimento humano, cercada de incertezas e alterações físicas, psicológicas e sociais. Se não bastasse tudo isso, a infância está sendo encurtada e a adolescência, começando cada vez mais cedo.

No caso das meninas, a passagem é um desafio ainda maior. A aparência de criança continua, mas detalhes denunciam que ali já desperta uma mocinha, apesar de os seios ainda não estarem completamente desenvolvidos nem o corpo tão arredondado.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, a cada década, essa etapa inicia três meses mais cedo – ou seja, a cada geração, a puberdade é antecipada em pelo menos seis meses. Por conta dessa mudança, o que antes acontecia aos 13 ou 14 anos, como o início da menstruação (ou menarca), hoje ocorre aos 11 ou 12 anos.

As causas, segundo os médicos, podem ter relação com a alimentação mais rica e a vida saudável. Quem defende essa tese embasa a explicação no fato de que, com menos doenças, o organismo se desenvolve melhor. Há, no entanto, especialistas contrários a essa ideia. Estes acreditam que é o maior número de crianças obesas o fator que acelera a evolução.

 

Mila Cunha, endocrinologista da PUC-CampinasEntre as duas correntes, porém, o consenso é que a puberdade é cada vez mais precoce, sendo verificada até em meninas de 8 anos. De acordo com a chefe do Serviço de Endocrinologia do Hospital e Maternidade Celso Pierro, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Mila Cunha, o fenômeno do amadurecimento precoce das meninas em relação às suas mães vem sendo registrado no último século.

 

“Essa variação deve-se à melhoria das condições de saúde da criança, pois os padrões socioeconômicos e o status nutricional são capazes de influenciar na data de instalação e no desenvolvimento da puberdade”, explica ela, ressaltando que, apesar das teorias, os reais motivos dessa antecipação seguem desconhecidos.

 

Em meio aos fatores que influenciam a aceleração do processo ainda está, para alguns especialistas, a exposição da criança à sensualidade por meio da mídia. “Não existem dados científicos comprovados quanto a isso, mas valem o bom-senso e a cautela dos pais em não expor os filhos a programas de conteúdo duvidoso”, pondera. Mila diz que há que se considerar também que existem poluentes ambientais que podem estar relacionados à puberdade precoce.

Chamadas de desreguladores endócrinos, essas substâncias antibióticas são comumente confundidas com hormônios dados aos animais destinados ao consumo humano e que provocam uma alteração nas gônadas (ou ovários) nas meninas.

“Não existe consenso sobre o que é proibido ou não, mas podemos tomar alguns cuidados, como manter uma alimentação saudável, com menos produtos industrializados; controlar o peso e evitar a obesidade; e monitorar o uso da televisão e da internet”, sugere. Mila recomenda também que a criança tenha acompanhamento pediátrico para a realização de exames físicos periódicos capazes de definir em que fase da evolução puberal ela se encontra e o diagnóstico dos primeiros sinais de que a puberdade se aproxima, como aparecimento de mamas e pilificação.

 

Retardar esse processo é possível, mas deve haver critério. “Quando existe precocidade sexual, é necessário adotar um tratamento cujo principal benefício seja a estatura final da criança. Mas também há a questão emocional, que precisa de atenção nessa fase”, ressalta.

 

 Aarão Mendes Pinto Neto, ginecologista da Unicamp Os médicos Aarão Mendes Pinto Neto e Ana Lúcia Ribeiro Valadares, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), concordam que as meninas de hoje amadurecem, do ponto de vista comportamental, mais precocemente do que suas mães. Segundo eles, isso se deve a mudanças no contexto social e a influências socioculturais. “Não há comprovação de que a alimentação influencie esse processo”, diz Ana Lúcia.

 

 

Ela afirma que é possível retardar esse desenvolvimento quando existem evidências de menarca prematura, mas a intervenção deveria ocorrer antes dos 9 anos. “Assim, evita-se que a menina fique com baixa estatura e ela se mantém distante de problemas emocionais e sociais, como os comportamentos inadequados para a idade em relação a outras garotas da mesma faixa etária”, lembra. Nesses casos, afirma, os efeitos benéficos superam quaisquer ocorrências adversas.

 

Já na opinião de Ana Lúcia, a estatura das garotas tem aumentado por influência da alimentação, pela melhoria das condições sanitárias, pelo acesso à saúde e pelo incentivo a atividades físicas. “Do ponto de vista psicológico, deve-se questionar os efeitos deletérios da erotização precoce que ocorre algumas vezes nas sociedades modernas”, afirma Pinto Neto, titular do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da universidade campineira.

 

Perceber e intervir

 

Uma das preocupações que os pais devem ter é controlar o peso

A jornalista Crislaine Gava percebeu que a filha Isabela apresentava indícios de puberdade precoce aos 8 anos, quando pelos começaram a aparecer nas axilas. Os seios também se desenvolveram e o corpo ficou “formado”. Diante desses sinais, o pediatra recomendou uma consulta com um endocrinologista pediátrico.

Para Isabela, que iniciou o tratamento há pouco mais de um ano, tudo foi estranho; ela não entendia direito o que se passava. Para a mãe, a notícia de que a filha estava em puberdade precoce foi um choque e o primeiro impulso foi resistir ao tratamento, já que a menina tinha que se submeter a vários exames, entre eles ressonância magnética, que requer sedação e internação.

O tratamento de Isabela é realizado com medicação injetável – no início, a aplicação era mensal; agora, trimestral. “O objetivo é retardar a menstruação para que ela não pare de crescer. Ela também faz aula de dança para ajudar no controle do peso, uma atividade que gosta muito”, diz Crislaine. Outra coisa que não incomoda Isabela é o uso de sutiãs, tanto que a garota já tem até uma coleção.

 

O supervisor de vendas Rodrigo Neubern de Mello também recorreu ao tratamento para a filha Rafaela, de 9 anos, que começou a apresentar sintomas de puberdade precoce antes de completar 6 anos. “Os sinais foram observados pela própria Rafaela, que notou um caroço no mamilo. Alguns dias depois, percebeu uma mancha na calcinha que poderia ser menstruação.

 

Diante disso, fomos a um especialista, foram feitos vários exames e ficou constatado que ela estava produzindo o hormônio da puberdade”, conta.

 

Rafaela também toma a injeção a cada três meses. Com a medicação, os sintomas desapareceram e a idade óssea se estabilizou. Porém, ela já menstruou, ainda que em pequena quantidade. “Não há incômodos, a não ser a injeção, que ela deve tomar até completar 10 anos.

 

Ela leva uma vida normal e o medicamento é muito bem tolerado, não provoca efeitos colaterais. Mas é importante ressaltar que o tratamento tem seu tempo certo para ser iniciado e quanto mais cedo o problema for diagnosticado, melhor a eficácia”, diz Mello.

 

A puberdade feminina, que faz parte da adolescência, tem início com a menarca, a primeira menstruação, que coincide com uma série de manifestações anteriores na fase pré-puberal. Entre as transformações estão crescimento rápido em vários centímetros e em pouco tempo, alargamento dos quadris, crescimento dos seios e pilosidade no púbis e nas axilas.

 

As glândulas sudoríparas também se desenvolvem, deixando o odor do corpo mais intenso e a sudorese, maior. Durante os dois anos seguintes à primeira menstruação, os ciclos podem ser irregulares, mais longos ou mais breves. Essas mudanças são resultado da atividade dos ovários, sobre a qual atua a hipófise. Ao nascer, a menina tem no ovário entre 200 mil e 400 mil óvulos, mas apenas cerca de 400 serão utilizados ao longo do período fértil.

Escrito por:

Vilma Gasques