Publicado 25 de Novembro de 2012 - 5h00

Maricene Vilela

Alessandro Rosman/AAN

Maricene Vilela

Quem observa Maricene Vilela, de olhar doce e um jeito simples de falar, duvida que ela tenha sido uma criança e adolescente rebelde, daqueles que não param quietos por nada. Nascida em São José dos Campos, a chef foi criada nos preceitos da doutrina evangélica e estudou para ingressar na vida militar. “Eu era aquele tipo de pessoa sem foco, nunca me encontrava. Resolvi radicalizar com minha família e fui a um retiro espiritual católico. A experiência me fez crer que estava num convento a vida que eu buscava. Decidi que seria freira do convento das Carmelitas de Jacareí”, lembra.

Mesmo sem qualquer prática culinária, foi designada para auxiliar com as panelas. “As carmelitas serviam comida para famílias carentes e eu não tinha a menor paciência para cozinhar. Não entendia porque tinha sido escolhida para aquele posto, pois só fazia o trivial”, conta. Foram dois anos de recolhimento e ensinamento. Com a freira chefe, aprendeu de tudo um pouco, do básico a fundos e molhos da alta gastronomia europeia. “No dia a dia, a gente servia pratos simples para a comunidade. Nas datas festivas, o menu era mais elaborado. As freiras, que vieram da Europa, me ensinaram muito da culinária de lá. Eu ainda não sabia a terminologia, mas já elaborava pratos que jamais sonhei fazer”, conta.

O aprendizado foi além do preparo das receitas. “Irmã Maria Teresa me explicou o porquê do cozinhar, as simbologias do momento de fazer a comida, que deve ser preparada com muito amor. Para mim, cozinhar é dom, é amor”, opina. Apesar de ter se surpreendido com a escola que fora o convento, Maricene partiu antes de fazer os votos e se tornar freira. “Entendi que tinha vocação para a cozinha, não para ser uma religiosa”.

Daquele momento em diante, a chef decidiu embarcar na profissão, sem se importar em começar do primeiro degrau. “Fui trabalhar de faxineira numa empresa de transportes. Além da limpeza, passei a fazer comida para os caminhoneiros. Deu tão certo que com esse dinheiro extra paguei um curso técnico de nutrição no Senac”, lembra.

O empenho dela levou uma professora a incentivá-la a cursar gastronomia no Senac de São José dos Campos. “Eu era uma pessoa chucra, nem sabia que existia esse curso. Fui, fiz a prova, passei e consegui trabalho no Senac. Paguei o estudo com uma bolsa”, comenta.

O primeiro grande passo

Dois anos depois e com o diploma na mão, a chef encontrou seu lugar numa grande cozinha, na rede Café Cancun. “Voltei para São José dos Campos e consegui emprego como cozinheira. Fiquei lá sete anos.” Na casa, Maricene foi conquistando espaço até alcançar o posto de subchefe e rodar o Brasil, mergulhada na culinária latina.

Só que a personalidade hiperativa falou mais alto. Maricene deixou a rede e procurou um restaurante japonês, onde foi beber da milenar gastronomia asiática. “Queria conhecer a filosofia e a gastronomia japonesas, que estão muito ligadas”, diz. Há sete anos, a alma cigana trouxe Maricene para Campinas. Com R$ 23 no bolso e esperando uma parcela do seguro-desemprego, ela se instalou numa república no Centro e deu início a uma bem-sucedida carreira. “Mudei com a cara e a coragem, porque me falaram bem da cidade. Não tenho família nem amigos em Campinas.”

A chef começou fazendo bicos no Cambuí e logo voltou ao Café Cancun – a unidade campineira ficava no Galleria Shopping. “Fiquei um tempo e depois fui trabalhar num restaurante mexicano. A essa altura, já tinha um bom conhecimento da culinária daquele país e vi a oportunidade de ter meu próprio negócio.”

México ambulante

Com o apoio de Nislei Sousa, até então a única amiga na cidade, Maricene montou uma barraca e percorreu vários pontos com seus pratos mexicanos, de pegada tex-mex, bem ao gosto brasileiro. “Íamos a muitos lugares, como Centro de Convivência, Castelo, Praça do Carmo e Unicamp, além de eventos”, conta. Decidida a alçar voos mais altos, a dupla inaugurou, em 2010, em Barão Geraldo, o La Salamandra. “Realizamos um sonho. A nossa filosofia é oferecer uma comidinha mexicana com tempero caseiro, bem feita e que dê vontade de voltar”, explica.

O projeto deu tão certo que, em março, as sócias abriram a segunda unidade, em Sousas. “Sempre foi nosso sonho, porque Sousas é uma região linda e de diversidade gastronômica.” A vontade de mudar, no entanto, não deixa a chef parada. “Agora estamos recuperando o investimento, mas nosso próximo objetivo é franquear a marca”, adianta.

 

Do México vêm os burritos, os tacos e o guacamole; do Peru, o ceviche e, dos Andes, a chicha morada, refresco típico das civilizações pré-colombianas e muito consumido por incas e maias

 

Soy loca por ti, América

O tempero e o jeitinho de preparar são bem brasileiros, mas os ingredientes e as receitas são característicos da multicultural América. Do México vêm os burritos, os tacos e o guacamole; do Peru, o ceviche e, dos Andes, a chicha morada, refresco típico das civilizações pré-colombianas e muito consumido por incas e maias. “Sou apaixonada pela gastronomia do nosso continente. É de uma pluralidade ímpar, que vai da civilização maia, da América do Sul, aos afrodescendentes dos Estados Unidos”, explica Maricene, que prefere os pratos quentes. “Elaborá-los é sempre um desafio, principalmente para mim, que busco um denominador comum, capaz de fundir em um só os elementos de uma terra tão grande quanto a América”, avisa.

No laboratório do La Salamandra, Maricene passa seis meses experimentando uma criação até que, junto dos clientes, decida se ela entra ou não no menu. “Eu crio e depois apresento aos clientes mais assíduos. Vamos apurando o sabor, o paladar juntos. Promovo um menu degustação e só com o aval deles a nova opção entra no menu”, explica.