Publicado 29 de Novembro de 2012 - 18h10

Por João Nunes

Cena do filme O Homem da Máfia

Divulgação

Cena do filme O Homem da Máfia

Todo o primeiro ato de 'O Homem da Máfia' ('Killing them Softly', Estados Unidos, 2012), de Andrew Dominik, está centrado em dois personagens pés de chinelo: Frankie (o ótimo Scoot McNairy) e Russell (Ben Mendelsohn). Caindo pelas tabelas (Russell só pensa em droga), os dois planejam o golpe da vida deles. Descobrem que um pôquer foi assaltado e resolvem fazer o mesmo. Acham que será fácil (e será). Só não sabem que o pôquer está sob proteção da Máfia.

É com este fio narrativo que o filme baseado no livro de George Higgins (não confundir com o seriado homônimo dos anos 1980) se desenvolve. E a Máfia aciona o detetive Jackie Cogan (Brad Pitt, que só aparece na segunda parte) para investigar o caso. Jackie é matador profissional que costuma contar proezas, entre elas a de que gosta de matar “suavemente” — daí o título em inglês. E Frankie e Russell se verão em maus lençóis.

'O Homem da Máfia', como indicaria qualquer produção sobre essa organização, é extremamente violento. Jackie é frio, calculista, não manda recado e cumpre fielmente seu princípio de realizar a tarefa com calma e paciência — as vítimas sofrem a tortura moral de saber que vão morrer, mas são tratadas como se houvesse salvação.

E Jackie não está só, pois tem um estranho sujeito de terno e gravata (Richard Jenkins) como interlocutor. E, como conhece demais os envolvidos, ele chama para ajudá-lo outro matador profissional, Mickey (James Gandolfini, um pouco repetindo a performance do espetacular seriado 'Família Soprano'). Há, ainda, no complemento da trama, o papel que joga o próprio dono do pôquer Markie (Ray Liotta), aparentemente sob cobertura da Máfia, mas que também terá seus momentos de horror.

E como base de tudo, há um conteúdo político presente em toda a fita. A história se passa durante a primeira campanha de eleição do presidente Barack Obama, em 2008. Os discursos dele pela televisão sobre a sociedade americana estão por toda parte. Do telão do hotel ao bar da esquina. E são discursos otimistas em meio à grande crise econômica que afetou os Estados Unidos na época.

Quando exibido na competição oficial de Cannes, em maio, Brad Pitt se apressou em dizer que o filme não era contra Obama e lamentava que ele estivesse sendo lançado em plena campanha eleitoral — que, afinal, reelegeu o atual presidente. O aviso fazia sentido porque há uma ironia que permeia os discursos em relação à violência que se vê na tela.

Sim, há a pretensão de fazer um atestado sobre a degradação dos Estados Unidos — daí o discurso político onipresente — em meio à citada crise que abalou o país. A Máfia virou corporação (o tal sujeito de terno e gravata e carro bacana é seu maior exemplo) e o próprio país perdeu as características marcantes de sua formação para se transformar em puro negócio (esta é uma das falas de Jackie Cogan).

Apesar da bela trilha sonora, vemos uma história pessimista até a medula. Pensar que os próprios mafiosos e assassinos de aluguel fazem discursos sobre a degradação de um país mostra a que ponto se chegou. E mesmo sendo bem dirigido, há excesso de preciosismos em algumas cenas, especialmente em um dos assassinatos — beleza plástica em cena desse gênero soa exagero.

Assiste-se a 'O Homem da Máfia' com prazer se analisado nos termos cinematográficos de sua realização, no apuro do acabamento, no bom roteiro do próprio diretor e nas atuações. Porém, a violência e o pessimismo se impõem de tal maneira a partir do título original e em contraposição aos discursos políticos que cria um cinismo difícil de digerir.

 

Escrito por:

João Nunes