Publicado 06 de Novembro de 2012 - 17h45

Por Zeza Amaral

ZEZA3

XXX

ZEZA3

Para quem só acompanha futebol jogado em Copa do Mundo, ou que, simplesmente, não dá a mínima pelota para uma partida de futebol, é realmente um absurdo ver marmanjos e marmanjas chorando a derrota do seu time. Mas tem coisa ainda mais absurda: um bando de celerados tentando invadir o campo para agredir os jogadores da sua própria equipe e sem medir consequências, o tamanho do cassetete do PM, os efeitos do gás de pimenta e das balas de borracha. E lá vem o Neto, meu comentarista preferido, dizer que a PM “agrediu” a torcida. Bola fora, sem dúvida.

Ali, na arquibancada, é onde o torcedor chora e a mãe não vê. O time joga bem, com vontade, mas a bola não entra. Bola na trave, bola tirada em cima da linha, bola batendo nas costas do último zagueiro, bola na bolinha do tornozelo se espirrando rente à trave, goleiro adversário espalmando até a sombra da bola, nada dá certo e acontece um contra-ataque e o adversário faz o seu gol. O torcedor apela para todos os santos e preces e o jogo segue do mesmo jeito.

O que leva um time que joga bem a não conseguir fazer os gols que necessita, é um mistério ainda mais insolúvel que o da Divina Trindade. Simplesmente a bola não entra. Ou melhor, o time faz alguns gols mas ou acaba perdendo a partida, de virada, quase sempre, ou empatando nos últimos minutos, quando poderia ganhar de três ou mais gols de diferença. Mas a bola não entrou quando deveria entrar. E o torcedor se irrita e perde as estribeiras (na verdade, torcedor que se preza já perdeu as estribeiras em alguma sala da Maternidade). Mas é possível recuperá-las com o passar dos anos, dos jogos, dos rebaixamentos. Por experiência, digo que a única coisa que dói é o orgulho. E digo também que ninguém aprende nada com a dor. E muito menos com os erros cometidos. Dores e erros são apenas dores e erros. De fato, o que se aprende na vida é sobreviver. Mas ninguém se lembra do prazer que é respirar ou matar a sede e a fome. E muito menos da alegria de ver seu time entrar em campo contra um adversário que irá valorizar a partida em si, perdendo, ganhando ou empatando. Como diria Beto Gomes, meu perenal guru, tem dia que de noite é tudo a mesma coisa. E o jogo Palmeiras e Botafogo foi exatamente isso.

Torcedores que tentam invadir o gramado, que promovem brigas contra adversários, que picham as paredes de seu clube são aquelas bestas que bem poderiam andar de quatro e ostentando luzidios bridões nas bocas e sela nos lombos. São os que não querem perder o par de estribos que trazem implantados nas costas por obra da crassa ignorância esportiva.

Quem perde a estribeira, chora, xinga o imponderável, a segunda mãe do juiz, Deus e todos os santos. Depois volta pra casa, para no boteco do bairro para refrescar a memória e lembrar os bons e velhos tempos de Julinho, Ademir da Guia, China, Leão, Luiz Pereira, Leivinha, Edmundo e assim aprende que os deuses do estádio são brincalhões quando provocam a memória dos bons torcedores.

Em dias em que a bola não entra, sempre é bom lembrar que não há tristeza que sempre dure e tampouco felicidade que nunca se acaba. A depender da situação de cada equipe, é assim que os deuses temperam o futebol. Já o mau torcedor aprende mesmo é com o chicote da lei. Às vezes, nem com isso.

Bom dia.

Escrito por:

Zeza Amaral