Publicado 25 de Novembro de 2012 - 18h31

Tadeu Fernandes

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Tadeu Fernandes

Sempre comento casos da vovó Naná e os netinhos, pouco falo dos pais desses pequenos, mamãe Bia e papai Pedrão. Mas, hoje, entram no consultório vovó Naná e sua filha Beatriz, olhares tristes e uma sacola enorme contendo dezenas de exames.

Vovó Naná explica que a Bia rodou vários médicos e ninguém conseguiu resolver um problema que esta “acabando” com mãe do Pedrinho, uma dor de cabeça terrível, na região da nuca, que atrapalha até o sono.

Primeiro ela procurou um especialista, o neurologista, que a examinou e nada achou, solicitou uma tomografia da cabeça, o laudo veio escrito normal, mas recomendava no rodapé uma ressonância magnética para complementar o diagnóstico de normalidade, após executado, ela ficou ciente que não tinha nada de anormal em seu crânio.

Como a dor era na região da coluna cervical ela procurou um ortopedista, que examinou e pediu algumas radiografias... Laudos normais que recomendavam um ultra-som para complementar; também normal e ele solicitou a fisioterapia.

Após dez sessões a dor não melhorava, principalmente à noite, quando chega exausta do serviço no banco onde gerencia as contas das pessoas jurídicas mais exigentes dessa cidade.

Foi ao médico recomendado por uma amiga que pediu todos os exames de sangue, duas folhas de pedidos, segundo ela foi quase meio litro de sangue e os resultados acusaram que ela estava absolutamente normal, o colesterol um pouquinho acima, fato que fez o médico recomendar o ingresso em uma academia.

Ela falou: “que hora!”. Saio do banco tarde, pego as crianças na casa da vovó e chegando em casa ainda tenho um monte de roupas para guardar; a Maria lava e passa, mas não guarda.

Foi fazer um check up ginecológico, tudo normal, mamografia, ultra-som, papanicolau, segundo o médico “ela é uma quarentona com corpo de mocinha!”.

Mas a dor de cabeça e a falta de sono estão deixando Beatriz sem paciência com as crianças, irritada, mal humorada, por vezes cai aos prantos...

Vovó Naná resolveu levar mamãe Bia para consultar o pediatra das crianças, porque ele conhece a família...

Realmente... E essa foi a primeira pergunta, como esta papai Pedrão?

Ficou sem resposta, as lágrimas mostraram que tinha alguma coisa errada... Soluçando ela contou que há alguns meses desconfiava do Pedrão, estava meio “frio”, raramente a procurava para “namorar”, deixava o Pedrinho e a Duda dormirem com a mãe e ele dormia na cama do filho, até que um dia uma amiga contou que o viu com uma loira, a outra confirmou e a outra contou até onde eles se encontram.

Perguntinha boba: “foi nessa época que começaram as dores de cabeça?”. Resposta óbvia!

Recentemente o Congresso Brasileiro de Humanidades em Medicina suscitou reflexões sobre o relacionamento médico-paciente nesse momento histórico marcado pelo rápido avanço tecnológico e a mecanização da assistência em saúde.

Ficou claro que a objetividade tecnocientífica da medicina moderna, a expansão dos convênios médicos, protocolos e diretrizes degradaram as condições de trabalho, principalmente nos quesitos honorários médicos e relacionamento médico-paciente.

A relação fraterna e insubstituível do médico com seu paciente têm como coadjuvante o uso de uma série de tecnologias, meramente complementares!

A doença é uma entidade teórica, a medicina de Hipocrates valoriza a preservação da saúde, da vida e da dignidade humana, os tempos modernos mudaram o foco do doente para a doença.

Humanizar a pratica médica requer que se conheça o doente, estabelecer um vínculo com a biografia e as expressões afetivas do paciente. Os avanços tecnológicos e as máquinas tentem a evoluir de um modo infinito, mas a gestão da saúde com humanidade e dedicação é finita.

Precisamos reverter essa perigosa tendência, os convênios precisam privilegiar a remuneração do homem, não das máquinas. Para maior reflexão, após ler esse texto assista ao sensacional filme com Will Smith: “Eu, Robô”, que mostra justamente essa guerra onde se tenta impedir que as máquinas subjuguem os seres humanos.