Publicado 23 de Novembro de 2012 - 18h26

Rubem Alves

CEDOC

Rubem Alves

O Cecílio, amigo querido, veio me visitar. Conversa vai, conversa vem, ele me contou sobre a sua empregada — governanta de sua casa — mulher madura, de poucas palavras, sempre séria e compenetrada. Pois um dia, precisando sair, o carro pifou justo na hora em que o marido dela tinha vindo buscá-la, ao final do dia de trabalho. Ele lhe ofereceu uma carona no seu carro que não era dos mais novos, oferecimento que o Cecílio alegremente aceitou. Antes da partida, o marido tirou um CD de dentro de uma caixa e o colocou no toca-CDs. O Cecílio se preparou para ouvir uma dupla sertaneja, música que não se afina bem com o seu gosto. Mas logo veio a surpresa e o seu rosto se encheu de espanto. O marido, percebendo o espanto, explicou: “Pois é, a minha mulher acabou gostando daquelas músicas que o senhor escuta o dia inteiro. Curiosa, ela foi ver o nome: Vivaldi... Agora, a gente anda de carro ouvindo Vivaldi... Como é bonito”. O Cecílio, sem querer e sem saber, educou. Na verdade, ele não educou. Foi a governanta que se educou. Estava aberta. Acolheu o novo. E ficou transfigurada, mais bonita, mais rica. E acabou por educar o marido, que também começou a brincar com a música de Vivaldi. Agora, dentre as alegrias que eles tinham, eles tinham uma outra, que nunca haviam experimentado e nem aprendido nas escolas. É, nas escolas não se ensina a gostar de Vivaldi...

NO SEMÁFORO, a mocinha aproximou-se com um folheto imobiliário na mão. Desci o vidro para receber. Aí ela ficou estática — cara de quem tinha visto alma do outro mundo! — e se aproximou um pouco mais da janela aberta. A música que estava tocando lhe dera um susto. Era o concerto de Mendelson para violino e orquestra. Ela nunca ouvira nada parecido. “Eu nunca ouvi música assim. É música muito de antigamente?” As únicas músicas que ela conhecia eram as sertanejas e as bate-estacas... Onde andará ela, a mocinha que, se tivesse tempo, acabaria por gostar de música clássica...

SOFRIMENTO E BELEZA: Nietzsche passou por uma longa experiência de doença nos olhos... Pensou mesmo que iria ficar cego. Esse período de doença o fez pensar pensamentos não programados. Eis o que ele escreveu: “É assim que aquele longo período de doença aparece a mim, agora: como se fosse, eu descobri a vida de novo, incluindo eu mesmo; eu provei todas as coisas boas, mesmos as pequenas, de uma forma como os outros não as provam com facilidade — eu transformei a minha vontade de saúde, de viver, numa filosofia”. “ A minha doença me deu o direito de mudar todos os meus hábitos completamente; ela permitiu, ordenou que eu esquecesse; ela me concedeu a necessidade de ficar quieto, do laser, de esperar e ser paciente. A doença dos meus olhos colocou um fim na obsessão pelos livros... Fui libertado dos livros. Por anos eu não li coisa alguma — o maior benefício que eu jamais conferi a mim mesmo. Somente a minha doença me levou à razão.”

Pode ser que você ainda não tenha se dado conta disto, mas o fato é que todas as coisas belas do mundo são filhas da doença. O homem cria a beleza como bálsamo para o seu medo de morrer. Pessoas que gozam saúde perfeita não criam nada. Se dependesse delas o mundo seria uma mesmice chata. Por que haveriam de criar? A criação é fruto do sofrimento. A se acreditar no poeta Heine, foi para se curar da sua enfermidade que Deus criou o mundo. Deus criou o mundo porque estava doente de amor... Eis o que Deus falou, segundo o poeta: “A doença foi a fonte do meu impulso e do meu esforço criativo; criando, convalesci; criando, fiquei de novo sadio.”