Publicado 28 de Novembro de 2012 - 5h00

Rodrigo de Moraes é jornalista da Agência Anhanguera de Notícias rodrigo@rac.com.br

Cedoc/AAN

Rodrigo de Moraes é jornalista da Agência Anhanguera de Notícias [email protected]

Semana passada, escrevi que “umbigo do mundo” foi a expressão utilizada por um explorador francês, lá pelo século 18, para designar a Ilha de Páscoa, de tão perdida que ela está no meio do Oceano Pacífico.

Vejo agora como é curioso que o termo tenha sido cunhado por um europeu: mesmo porque é a este que atribuiríamos, em sua plena convicção de superioridade moral e científica, a presunção de primazia sobre a espécie humana, a sensação de ser o centro de tudo.

Eu, em meus tempos de faculdade, fui ensinado a olhar com desconfiança para essa convicção, batizada de “etnocentrismo” no século 19 pelo americano William G. Sumner, detentor da primeira cadeira de sociologia na universidade de Yale. É perigoso, diziam, avaliar outras culturas e sociedades pelas nossas próprias referências, porque corremos sério risco de cair no preconceito.

Concordo. Mas não seria uma tendência inata do ser humano adotar essa postura? Algo que não passa pelo nosso crivo racional? O geocentrismo, dogma da Igreja Católica que quase levou Galileu à fogueira por questioná-lo, não estaria ligado a essa tendência de nos acharmos, nós ocidentais, no centro de tudo?

De qualquer forma, foi com essa disposição “etnocêntrica” que desembarquei em Lima, no Peru, na segunda parte da minha viagem de férias (a primeira parte contei na semana passada, e prometo ao leitor, certamente já farto de minhas deambulações, parar por aqui).

Ao longe, a 1,2 mil quilômetros dali, Machu Picchu, a ancestral cidade inca encravada na fronteira entre as montanhas e a selva peruana, acenava na promessa de ser o auge da jornada: não esperava muito do resto do Peru (podem imaginar trocadilhos à vontade; me cansei deles). Seria, pensei, o único real atrativo em um país que eu tinha como sujo, pobre, desorganizado. Li que algumas cidades peruanas podiam ser violentas, que o aeroporto de Lima era terreno onde grassavam golpistas.

A quase paranoia de que estava tomado foi reforçada quando, ao chegarmos eu e minha mulher no aeroporto, o agente da operadora de turismo nos perguntou sobre nossos passaportes (alvos preferenciais de furtos, conforme li em sites de turismo). Incisivo, retruquei o que ele queria com os documentos, e ele, gentilmente, respondeu que eram requeridos nos hotéis, algo a ver com impostos.

A nossa desconfiança (que agora vejo absurda) gradualmente começou a ceder à medida que, no caminho para o hotel, o rapaz foi repassando o nosso itinerário para os dias seguintes, e estava tudo dentro do programado; quando a van parou em frente ao Íbis, estávamos novamente tranquilos.

No dia seguinte, Lima começou a se revelar para nós quando saímos para uma volta a pé pelas ruas de Miraflores, bairro onde estávamos hospedados. A cidade se mostrou moderna, luminosa, organizada (apesar do trânsito caótico) e cosmopolita. E as pessoas, muito gentis.

Mas, para mim, a grande surpresa de todas foi a música, que me chamou a atenção pela primeira vez quando fui lavar as mãos no banheiro de um restaurante e, pelos alto-falantes do lugar, ouvi uma mistura de percussão e sopros muito distante daqueles insuportáveis lamentos andinos tocados com a melancólica zampoña, aquela tradicional flauta de bambu. Era um som vibrante e metálico, tradicional e moderno ao mesmo tempo. Tinha um quê de fúria contida, e imaginei um grupo de músicos tocando catárticos, quase possuídos, pela rua. Indaguei ao garçom que música era aquela, mas ele não soube dizer.

Com o passar dos dias e com a permeabilidade da memória, aquela melodia virou um som distante, fantasmagórico, algo que eu dificilmente recuperaria. Até que, ao final da viagem, pouco antes de embarcar de volta para o Brasil, entrei em uma loja no aeroporto da capital peruana. Me chamou a atenção um disco com a capa muito colorida, com motivos folclóricos estilizados de maneira quase psicodélica e os dizeres “Super Cholo Band” (cholo é uma expressão que designa um sujeito com sangue ameríndio). Pus o CD para tocar, e as primeiras notas me lembraram exatamente aquela música que havia escutado no restaurante, dias antes. Anotei na agenda o nome da banda (não comprei o disco porque achei caro, mas pouco depois vim a me arrepender) e, de volta em casa, fui pesquisar no YouTube. Encontrei um vídeo de um programa da TV peruana, chamado Misky Taky (www.youtube.com/watch), do qual a banda era convidada.

A proposta do grupo, cujo núcleo é formado por nomes conhecidos da cena musical peruana, é misturar música tradicional andina com rock. O resultado é animador, revigorante, original. Muito bacana, enfim. A banda (com a tradicional formação baixo - voz - guitarra - bateria - teclados) deve muito dessa vibração a dois velhos saxofonistas, aparentemente músicos convidados saídos de algum grupo folclórico do Peru. O repertório de Huanca, disco de estreia lançado este ano, traz versões de músicas do cancioneiro popular como Que Linda Mi Vaca (divertidíssima), El Borracho (que virou um pop rock de tons mais escuros) e Adiós Juventud — aquela cujas explosões de percussão e sopros me chamaram a atenção pela primeira vez para a música peruana e se incorporou ao repertório de gratas surpresas com que o país me brindou. Como se desferisse um tapa com luva de pelica na minha fuça etnocêntrica.