Publicado 30 de Novembro de 2012 - 5h00

Por Pasquale Cipro Neto

Pasquale

CEDOC

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Vamos trocar mais dois dedos de prosa sobre palavras que indicam o “ato ou efeito de”. Partimos de casos como o de “Compra, venda, troca, financia”, em que há um equívoco, já que se misturam três substantivos com um verbo. Como vimos, as formas adequadas são “Compra, venda, troca, financiamento” (quatro substantivos) e “Compra, vende, troca, financia” (quatro formas verbais).

Outro caso que vimos, em que também há um equívoco, é o de “Compra, venda, administra”. Ou se parte para três substantivos que significam “o ato de” (“Compra, venda, administração”) ou se parte para três formas verbais (“Compra, vende, administra”).

Vimos que os substantivos citados se formam por processos diferentes. No caso de “compra”, “venda” e “troca”, por exemplo, ocorre a derivação regressiva. Esses três substantivos (que indicam o “ato ou efeito de”) derivam, respectivamente, de “comprar”, “vender” e “trocar”. Os substantivos “financiamento” e “administração” também indicam o “ato ou efeito de”, também derivam de verbos (“financiar” e “administrar”), mas resultam de outro processo de derivação, visto que aos verbos primitivos foram acrescentados sufixos (“-mento” e “-ção”, respectivamente).

Já falamos do substantivo “provisão”, que designa o “ato ou efeito de prover”. Já sabemos que “prover” é sinônimo de “abastecer”, “suprir”, portanto sabemos também que “provisão” é sinônimo de “abastecimento”, “suprimento”. Agora, que tal alargarmos o arco do nosso vocabulário nesse terreno? Podemos começar, por exemplo, pelo ato de “conceber”, que é... Já sabe? Se não sabe, vou dar uma dica: que nome se dá ao medicamento que as mulheres tomam para não engravidar? Claro: “anticoncepcional”. Como se sabe, o prefixo grego “ant(i)-” indica idéia de oposição. Se eliminarmos o prefixo de “anticoncepcional”, resta “concepcional”, adjetivo que se refere ao substantivo “concepção”, que significa ... o “ato ou efeito de conceber”.

E “concessão”? O que é? É o “ato ou efeito de conceder”. Quem concede permite, outorga, dá, transfere os direitos, põe à disposição, portanto quem faz ou dá uma concessão... Por que as empresas privadas que exploram o uso de determinadas rodovias são “concessionárias”? Por que se lhes concede o direito de explorar essas rodovias, que, em tese, são públicas. E o substantivo “consecução”, que está no título deste texto? Essa palavra, que também indica a ideia de “ato ou efeito de”, é sinônimo de “conseguimento”. Sim, os dois substantivos derivam do mesmo verbo e designam a mesma ideia, que é... “o ato de conseguir”.

No verbete “-ação” (note o “tracinho”, por favor; não se trata do substantivo “ação”, mas da terminação, do sufixo “-ação”), o dicionário “Houaiss” diz que qualquer verbo português terminado em “-ar” pode dar origem a um substantivo de terminação em “-ação”, mas faz esta sábia ressalva: “...impõe-se, porém, levar em conta que o substantivo corrente pode ser outro, com outro sufixo de igual fim”. O dicionário exemplifica essa afirmação com “casamento” e “passamento”.

Moral da história: seria mais do que legítimo formar “casação” e “passação” para designar, respectivamente, o ato de casar e o de passar, mas, como não há uso dessas formas... Quanto ao “ato ou efeito de conseguir”, o mesmo “Houaiss” registra “conseguimento” e “consecução”. A primeira se registra desde o século XV (sem a especificação do ano), e a segunda desde 1570. O “Aurélio” e o “Vocabulário Ortográfico” também registram as duas formas. Já vimos aqui outros casos de dois ou mais substantivos que designam o mesmo “ato ou efeito de”. Vimos o caso do ato de lavar (que pode ser “lavadura”, “lavamento”, “lavação” ou “lavagem”). Em alguns casos o uso evidencia matizes diferentes entre formas aparentemente equivalentes, o que se vê, por exemplo, entre “salvamento” e “salvação”.

Escrito por:

Pasquale Cipro Neto