Publicado 23 de Novembro de 2012 - 5h00

Por Pasquale Cipro Neto

Pasquale

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Na última coluna, trocamos duas palavras sobre a falta de simetria em construções como “Compra, venda, troca, financia” ou “Compra, venda, administra”. Vimos que cré se casa com cré, e lé se casa com lé, ou seja, obtém-se a simetria quando se empregam só verbos (“Compra, vende, troca, financia”; “Compra, vende, administra”) ou só substantivos (“Compra, venda, troca, financiamento”; “Compra, venda, administração”).

Vimos também que todos esses substantivos indicam “o ato de”, mas não resultam do mesmo processo de formação. O grupo “compra”, “venda” e “troca” é formado por derivação regressiva (esses substantivos resultam da eliminação da terminação de “comprar”, “vender” e “trocar”, respectivamente); “financiamento” e “administração” se formam pelo acréscimo de um sufixo.

Vamos trocar mais duas palavras sobre os substantivos que indicam “o ato de”. Talvez você já tenha visto ou ouvido em algum noticiário político, em que se fala, por exemplo, do orçamento de um estado ou município, algo como “não foi feita a provisão de recursos para a execução dessas obras”. O que significa “provisão”? Nada mais do que o “ato de prover”. O caro leitor sabe que “prover” significa “suprir, abastecer”, não? Pois bem, se “provisão” é o “ato de prover” e “prover” significa “abastecer, suprir”, você já pode concluir o que significa a expressão “provisão de recursos”, certo?

Bem, antes que me esqueça, o verbo “prover” é um capítulo à parte no tema “conjugação verbal”. Já falamos dele aqui há um bom tempo, mas talvez seja bom voltar ao caso. Um belo dia faremos isso.

Vamos ver agora outras palavrinhas que indicam “o ato de”. Comecemos por uma que se usa bastante na aviação civil e no sistema bancário. Trata-se de “endosso”, que, assim como “endossamento”, significa “ato de endossar”. O que vem a ser o endosso de um cheque ou de uma passagem aérea? No caso do endosso, o favorecido (aquele cujo nome é preenchido no campo que vem depois do valor por extenso) endossa o cheque, ou seja, escreve no verso o nome do novo favorecido. No caso de um bilhete aéreo, a empresa que o emitiu pode endossá-lo para outra empresa, quando, por alguma razão, não pode prestar o serviço que vendeu. Nesse caso, o passageiro viaja pela companhia que acolheu o endosso (veja bem: que acolheu, aceitou).

Por falar em companhias aéreas, os comissários de voo da TAP (empresa aérea portuguesa) não empregam a palavra “salvamento” quando explicam aos passageiros os procedimentos a serem tomados em caso de emergência. Sabe o que eles usam? Usam “salvação” (“colete de salvação”, dizem eles). Nós, brasileiros, usamos essa palavra em outras situações, com outro aspecto do sentido de “ato de salvar”. No caso do colete, tenderíamos a usar “salvamento”. Quem tem razão? Todos, é claro. O fator uso é o que conta nesse e em muitos outros casos.

Outro caso interessante é o do ato de lavar. Em muitas regiões do Brasil, emprega-se “lavagem”, que talvez seja a forma predominante no país, mas não são poucos os lugares em que se emprega “lavação”. Não é por acaso que todos os dicionários registram as duas formas (essas e outras duas: “lavadura” e “lavamento”).

E o caso de “abstenção” e “abstinência”? Ambas traduzem o “ato de abster-se”, mas há uma sutileza no emprego de cada uma delas, não? Quando se fala do número de pessoas que não votaram, por exemplo, fala-se em “abstenção”, mas, quando se fala da privação de determinado tipo de alimento, por exemplo, fala-se em “abstinência” (“abstinência de carne”).

A língua é fascinante, não acha, caro leitor?

Escrito por:

Pasquale Cipro Neto