Publicado 29 de Novembro de 2012 - 11h10

JOAQUIM MOTTA

CEDOC

JOAQUIM MOTTA

A Revolução Sexual do século passado iniciou um processo lento e progressivo que ainda tem muito a transformar nas pessoas, nos casais, nas famílias e na sociedade.

No ano passado, lancei o livro “A Moral do Amor” (editora Pontes), onde procurei mostrar que essa revolução sexual só poderia se consolidar como uma verdadeira evolução do ser humano se caminhasse em direção a uma transformação amorosa.

Precisamos evoluir como seres sexuais e amorosos. Estamos nos descobrindo sexualmente, falta essa complementação de amor.

Por enquanto, como seres erotizados, estamos à busca do prazer que esteve limitado e contido por muitos séculos.

A nossa transformação amorosa ainda é tímida e muitas vezes prejudicada.

Sociedades predominantemente católicas, de cultura essencialmente moralista, sentem mais profundamente esse prejuízo. Vejam um estudo do México, país de cultura muito semelhante à do Brasil.

A socióloga mexicana María M. Collignon investigou a culpa antes e depois do sexo, na sociedade do seu país. Ela mostrou que critérios e valores arraigados estão longe de permitir que o sexo seja um prazer pleno. Há uma série de crenças relacionadas com o pudor, o temor e, em muitos casos, uma moral reforçada.

Jovens mexicanos, de ambos os sexos, não duvidam em assegurar que tudo mudou, que agora há mais liberdade no país deles, mas ainda estão muito restritos.

No entanto, essas mesmas pessoas, depois de suas práticas sexuais, admitem certo pudor. “Às vezes me sinto suja”, dizem algumas mulheres.

A autora conferiu que o modelo de sexualidade legitimado pelo mexicano médio é o da regra católica: heterossexualidade, casamento monogâmico e convencional, visando à reprodução.

As outras possibilidades: homossexualidade, bissexualidade, uniões livres e sexo casual, seguem sendo "castigadas", devido à influência das religiões de origem judaico-cristã, desde o “tempo dos conquistadores"...

Por fim, destacou a confusão entre culpa e responsabilidade em que muitos pares se envolvem, além da falta de estudos sobre o prazer: "No século XX e no que já foi deste, centramos a discussão no corpo, do prazer falamos muito pouco".

O prazer é divulgado, incentivado, parece mais fácil e partilhável, mas é parco e de pouca graça.

Corpos desnudos e disponíveis não fazem obrigatoriamente parceria erótica deleitosa. É indispensável a participação da alma, seja para explorar a liberdade de um encontro casual, sem culpa e com muita responsabilidade, ou para se vincular em uma relação duradoura, o que também demanda escolhas e posturas bem responsáveis.

A exposição facilitada da carne e dos atos íntimos veio a reforçar o caráter imoral da sexualidade. O pecado ficou mais comum, menos escondido, o crime está mais leve, exercita-se à vista de todos, mas o sexo continua imoral.

A faxina sexual completa, a limpeza que vai esgotar esse caráter corrompido, depende da nossa evolução ética e amorosa.

O prazer erótico não carece de explicitação. Sexo explícito pode ser eventualmente excitante, agradável, mas se for se libertando da conotação imoral, talvez ficasse cada vez menos interessante.

Ou seja, as demonstrações explícitas convencionais têm que continuar com seu caráter imoral para manter-se atraente, pois o só cabe uma explicitação para os que entendem o sexo como algo secreto, escondido.

O erotismo com sutileza sensual convoca toda a potencialidade sexual dos pares. Eles criam, sofisticam, contemplam alma e corpo e enlevam-se ao prazer exponencial.

Por exemplo, o corpo da mulher é extremamente pouco explorado nas relações sexuais. O hábito de focar diretamente os genitais parece descaracterizar o resto do corpo como local erótico.

Reconhecer a vulva (ela é muito mais rica em funcionalidade erótica de sensibilidade do que a vagina) como a área mais importante dos genitais sugere menos dependência da penetração vaginal.

No Brasil, 37% das mulheres (observem que número alto!) não têm prazer com o pênis bombando dentro da vagina. Aproveitam muito mais o sexo oral, manual, as massagens de um vibrador.

O orgasmo feminino pode ser vaginal ou clitoriano, não há referência de anormalidade para quem não sente o clímax na vagina.

Mulheres e homens devem expandir as erotizações do corpo, esquecer as tradicionais zonas erógenas, não inibir o aproveitamento de aproveitar e erotizar todo o corpo.

Quero lembrar ao leitor do nosso Grupo de Estudos do Amor (GEA). No site www.blove.med.br, clique GEA. Ou procure em http://www.anggulo.com.br/gea/eventos.asp. Inscreva-se para participar dos eventos das segundas-feiras às 19h30, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi. Nesta segunda, dia 03, acompanhe Ana Canosa e “A Metade da Laranja”.