Publicado 25 de Novembro de 2012 - 18h36

fabio toledo

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fabio toledo

Um fenômeno comum em nosso tempo é que a paternidade vem sendo assumida cada vez mais pelos avós. Há muitas causas para isso: são, por exemplo, os pais ou mães separados que voltam a residir na casa paterna; decorre, também, da gravidez na adolescência, cujas consequências são assumidas, de fato, pelos avós; é o caso, ainda, dos pais e mães que, embora casados e com um lar constituído, dedicam a maior parte do tempo a um trabalho intenso, “terceirizando” aos avós o cuidado e a educação dos filhos.

Mas será que esse fenômeno é natural, uma mera característica do mundo moderno? Ou terá consequências indesejáveis nas relações familiares e no próprio futuro da nossa sociedade?

Indagações dessa natureza não comportam solução única. Evidentemente, há que se verificar cada situação para se decidir, dentre as opções possíveis, a melhor. Há, por exemplo, casos de falecimento dos pais ou mesmo situações de doença, alcoolismo ou dependência química, cuja solução é mesmo deixar aos os cuidados dos avós, que então de maneira heroica, saberão encontrar forças para levar a cabo com muito amor essa sublime missão.

No entanto, essas situações devem ser tratadas como excepcionais. É que a obrigação de cuidar, educar e formar os filhos compete, por princípio de direito natural, aos pais. A paternidade e a maternidade não se exaurem no ato de gerar. Bem ao contrário, trazem em si o grave dever de zelar pela formação da prole. E essa missão não pode ser pura e simplesmente delegada a ninguém.

Muitas vezes, porém, são os próprios avós que contribuem para essa situação. Seja em decorrência de uma personalidade possessiva e dominadora, seja por um protecionismo exagerado, acabam por impor os próprios critérios na educação dos netos. Além disso, quando os pais não possuem recursos econômicos para prover às necessidades dos filhos, ou esses são muito escassos e insuficientes, criando uma dependência dos avós, é frequente que a figura de provedor acabe por implicar uma submissão dos filhos.

Nesse caso, é preciso deixar claro que os avós não detêm a mesma autoridade que os filhos em relação aos netos. E mesmo quando contribuem economicamente para a sua educação, isso não lhes permite “comprar” o direito de impor os próprios critérios. Será então necessário ter a valentia e a humildade para ajudar sem exigir nada em troca, assegurando aos pais o protagonismo na educação.

Então qual seria, nesse contexto, o verdadeiro papel dos avós?

É necessário ressaltar que podem desempenhar uma missão importantíssima e muitas vezes insubstituível. Dizem os especialistas que o avô e a avó estão num mesmo tempo biológico que os netos. É por isso que frequentemente têm muito mais paciência para estar com eles, sem pressa, numa convivência saudável e propícia para a construção de bons valores.

Dizem que os avós têm o direito de “estragar os netos”. Se bem entendida a frase, é necessário admitir que tem uma boa dose de sabedoria. Não se trata, evidentemente, de destruir tudo o que os pais porventura tenham edificado na formação dos filhos. No entanto, permitir vez por outra um doce antes da refeição ou comer a pizza com a mão, contrariando alguns caprichos dos pais, não faz mal a ninguém. Com efeito, os avós existem também e muito especialmente para temperar alguns rigorismos na educação dos pais.

Lembro-me das “aulas” de condução de veículo que tive com meu avô e das inúmeras travessuras que então ele fazia. Por vezes, agia como uma criança. No entanto, como era palpável e verdadeiro o amor que tinha por mim! Só de recordar aquela convivência maravilhosa me invade uma saudade que dilacera o peito. E aquele seu jeito brincalhão não significa que não tenha contribuído para a minha educação. Guardo bem gravada na memória um conselho que me deu num baile de formatura: “Filho, é dos pequenos gestos que se faz um grande homem”. Quantas vezes esse sábio conselho orientou minhas ações e decisões ...