Publicado 29 de Novembro de 2012 - 5h00

CELIA FARJALLAT

FRANCE PRESS

CELIA FARJALLAT

“Sempre acreditei que não vale a pena adotar a passividade como norma de vida. Sempre preferi reagir à injustiça e, claro, apanhei muito na vida.” Quem me diz isso é uma amiga, também idosa, lutadora em todas as frentes. Nunca provocou briga alguma, sendo pacífica por natureza. Não agride, isso não, mas me garante que, dificilmente, suportará ser assaltada, como acontece diariamente aos cidadãos desta Pátria amada, sem reagir. Já lhe disse várias vezes que reagir nesses casos é morte certa. Não sei se a convenci.

Capacidade de indignar-se é outro atributo que ela tem. Não desejando identificá-la, vou batizá-la de Priscila, nome antigo e bonito. Pois bem, Priscila diz que temos de reagir para sobreviver. Ou fortificamos nosso ânimo ou estaremos perdidos e, como diziam os antigos, “no mato sem cachorro”. Então será tarde para que o Brasil seja um País estável. Creio que é preciso dar um rumo a essa nau perdida num mar de abusos e corrupções, desde o nepotismo mais escandaloso aos mais injustos desvios de verbas. E usando o modo de falar náutico, repetia Priscila ser ainda tempo de exorcizar a catástrofe, modificar o roteiro do barco e entregar o leme em mãos mais firmes. Priscila recorda uma página antológica, escrita há anos por Gilberto de Melo Kujawski, que apresenta uma solução original e inteligente: em tais ocasiões de tamanho perigo, é preciso, antes de tudo, reconquistar a posse de si mesmo, sem a qual não é possível a posse do mundo e o domínio do caos.

Logo, se o País enfrenta crise sem igual, se numerosos homens que pareciam confiáveis tiraram a máscara e se renderam à sedução do ganho, resta ao cidadão comum, antes de tudo, encontrar seu patrimônio histórico e cultural, recuperando assim sua identidade, programar-se, lutar para sobreviver.

Há uma riqueza sem preço acima de todas as barganhas, um patrimônio que é o cerne de nossa tradição, que se resume em trabalho, naquele impulso criador e global e que em nenhuma ocasião deve ser retirado dos homens.

Como valores do patrimônio brasileiro, temos o lirismo da poesia barroca de Gregório de Matos, a análise de Machado de Assis e o surdo sentimento do mundo em Carlos Drummond de Andrade. Temos a música de Villa-Lobos. Poderíamos ainda acrescentar a obra do campineiro Carlos Gomes, o talento de Rui Barbosa e muito mais. Ora, tudo isso não vai ajudar a debelar o analfabetismo, mas sim impedir que nos transformemos em criaturas sem raízes e sem passado, e certamente sem futuro.