Publicado 08 de Novembro de 2012 - 5h00

CELIA FARJALLAT

FRANCE PRESS

CELIA FARJALLAT

Quando meu Fusca branco, novo em folha, sucedâneo de outros Fuscas que tive na vida, foi furtado, senti tudo o que já sentiram outras vítimas: raiva, arrependimento e pena porque eu própria contribuíra para a perda total. O valente carro não estava no seguro! Resolvi voltar a ser pedestre, a andar de ônibus ou a pedir carona, conforme o caso. Tenho filhos, netos e amigos, realmente gentis, sempre prontos a me levar de lá para cá, a qualquer hora, mas detesto incomodar os outros.

Foi quando resolvi comprar um jegue. Houve dificuldade, é claro porque há poucos jegues disponíveis por essas paragens, enquanto sobrem os outros, em sentido figurado. Segundo, onde colocar o bichinho teimoso? Moro bem no Centro em apartamento minúsculo. Reparti-lo com um jegue não iria dar certo. Os vizinhos iriam reclamar, embora alguns bem merecessem ter um deles por perto. Mas, irreverências à parte e, para evitar protestos, ponderei que seria melhor deixar a ideia de lado e aprender mais sobre esses animais que são a bênção das regiões áridas do Nordeste.

Comecei procurando saber quais autores têm enaltecido esse animal. E dei logo de início com Álvaro Moreira, cronista de As Amargas Não, escritor admirável como hoje raramente se vê. Ele dizia gostar dos burros. Dos substantivos, dos adjetivos não. Outro autor, Marçal Versiani, estendia seu carinho aos jumentos, via que os jegues são uma variedade admiravelmente adaptada às asperezas do Nordeste brasileiro.

Ele já serviu até para protestos quando os petroleiros colocaram a pergunta sobre aquele jegue, postado, mansamente, às portas do Tribunal Superior do Trabalho: “o jegue é nosso”. Faz muito tempo isso. Mas o jegue continua nosso, eis a questão. Dizem que veio trazido pelos colonizadores portugueses do Norte da África. E aqui se aclimatou às mil maravilhas porque combinava em tudo com os humanos subnutridos da região, até na baixa estatura, causada pela fome de várias gerações.

Os burros são híbridos, resultando do cruzamento do jumento ou jegue, com égua. E essa herança genética tornou-os decididos, apropriados às fainas da mineração nas Alterosas. Dizem mesmo que eram trazidos da Província de São Pedro do Rio Grande, junto com os bois para o abate. O roteiro passava por Vacaria, Lages, Toledo e Sorocaba.

Aliás, a fama dos jumentos vem de longe, e Dario, o Grande, da Pérsia, derrotou os citas, aterrorizados com a presença destes animais. Hebreus fizeram deles animais de montaria. E quando Jesus entrou em Jerusalém, no Domingo de Ramos, ia montado num jumento, e não como Dom Quixote em um cavalo.

Muito antes, quando a Santa Família fugiu para o Egito, Nossa Senhora ia em um burrico manso, carregando o Redentor do Mundo.

Aqui mesmo, nas velhas fazendas de café, que foram o orgulho dos homens antigos, as crianças aprendiam a montar primeiro nos pacientes jegues. Só depois cavalgavam cavalos de trote duro ou de galope três quartos. Desculpem: do Fusca passei ao jegue... Sorry.