Publicado 09 de Novembro de 2012 - 5h00

CECILIO

CEDOC

CECILIO

Não são tempos apenas sombrios, nem apenas brilhantes. Em mobilidade intensa, imagens se confundem. Há todos os tons, entre o preto e o branco. Mas predomina o cinza, como algo ainda indefinido, talvez ambíguo. As transições são cinzentas. E, por isso mesmo, exigem convicções e definições sólidas. O inseguro, o superficial, o volúvel, estes são levados pelas torrentes.

Creio estarmos no momento de rever conceitos que foram esquecidos ou, talvez, estejam apenas adormecidos. Na confusão, os significados e os sentidos também se atrapalham. Então, aquilo que é parece deixar de ser. O principal é atropelado pelo secundário. E o essencial, pelo acessório. Acontece com o próprio ser humano. E a pergunta se impõe: o que é, em verdade, um ser humano?

Uma milenar reflexão de Agostinho de Hipona permanece viva, ainda hoje, por sua lucidez essencial. Ele reflete sobre o que existe, o que vive, o que é. A pedra e o cadáver existem. Mas não tem vida. A flor, as animais existem e têm vida. O ser humano existe, tem vida e é. Ou seja: pensa, reflete, contempla, decide. Seria, verdadeiro, então, que toda a pessoa existente é verdadeiramente humana? E a vida: é um direito ou um merecimento?

Temos vivido o paradoxo de falar-se muito sobre direitos humanos e de, no entanto, falharmos ao defini-los, abordando-os com superficialidade e conveniências setoriais. Talvez, estejamos confundindo o direito inalienável de nascer com o direito à vida. Todos os que palpitam num ventre humano têm o direito de nascer. Isso é uma graça para se poder usufruir do dom da vida. Mas esta é uma conquista, uma construção. Para tê-la em plenitude, não basta ter nascido. É preciso merecê-la. Seja lá se por falta de oportunidades, por fracassos de estruturas sociais, por sociedades desumanas, ou seja, até mesmo por vontade própria, há pessoas que apenas existem e vivem. Mas que não são.

Não basta, pois, apenas nascer para se tornar humano. Para não ser apenas um primata diferenciado, o ser humano é uma construção permanente, uma arquitetura notável que precisa de engenharia especializada. Dizia-se que o homem “é o sonho de Deus”. Logo, é um sonho belo, esplêndido, destinado à plenitude do bem. O sonho — para se tornar real — constrói-se, não se realiza sozinho.

Não se pode, pois, dizer-se que haja uma só humanidade, apesar de usarmos a palavra para designação genérica do conglomerado humano. Há diversas humanidades, diferenciadas pelos princípios que cultuam e de valores que as compõem. Apenas podemos falar em ser humano se princípios universais como fraternidade, simpatia, cordialidade tiverem-no formado, transformando-o de simples primata em pessoa humana.

Minha caminhada pela vida — idas e vindas, erros e acertos, equívocos e aprendizados — me leva, hoje, à plena consciência de que as comunidades têm que ser seletivas. Humanos podem e devem fazer parte delas, com suas regras, leis, ordem moral. Primatas — que vivem amoralmente como animais — não podem conviver nesse universo humano. Teriam que ser domesticados. Em não o querendo ou em não o permitindo, hão que ser repudiados.

Ora, para se entrar num clube de serviços, num grupo social, numa comunidade religiosa, pessoas são escolhidas, selecionadas, obrigando-se a seguir estatutos, regras, leis. Se, depois de aceitas, vierem a denegri-las, são expulsas, excomungadas, banidas. A civilização impõe regras que subordina a todos. Filósofos e pensadores insistem em diferenciar o “homo humanus” do “homo barbarus”. De tão diferentes diante da vida, o humano e o bárbaro não conseguem e nem podem conviver.

Em tempos cinzentos, perdemo-nos em indefinições e equívocos. Não há direitos sem deveres. Temos feito a apologia de direitos e, tolamente, minimizado deveres. As sociedades humanas não estão prontas, acabadas, mas em construção. O ser humano também. O humanismo é uma doutrina ética que se fundamenta no aperfeiçoamento moral em busca de uma sociedade civil universal e governada pela lei moral. Logo, é um processo em direção ao verdadeiro sentido de humanidade, que é o da fraternidade. Se os homens não a conseguirmos realizar, seremos, apenas, um simples gênero superior de animais.

As cidades e os povos não podem conviver com bandidos, traficantes, corruptos, assassinos, oportunistas. Estes são os bárbaros. Logo, não são humanos. Apenas existem e vivem. Eles não tem, pois, o direito de conviver com os humanos. Temos que fazer a seleção: humanos para cá, bárbaros para lá. Água e óleo não se misturam. Entenda-o quem quiser. Ou quem puder.