Publicado 28 de Novembro de 2012 - 5h00

Por André Fernandes

ANDRÉ FERNANDES

CEDOC

ANDRÉ FERNANDES

Assistir aos canais de telecompras é bem divertido. Ali, vende-se de tudo, menos a mãe, ao menos que eu saiba. Do útil ao inútil, parcela-se em tantas vezes, entrega-se rapidamente e, se o produto não corresponder às expectativas, pode-se devolvê-lo e ser reembolsado com direito a um brinde, a um bônus ou a um vale-qualquer-coisa na próxima compra. Para manter a fidelidade comercial.

Mas o mercado gosta de inovar. Para todos os sentidos e direções, inclusive para aspectos da vida tradicionalmente regidos por outras normas. Vejamos a indústria farmacêutica. Ciosa do grau crescentemente hipocondríaco dos adultos, já que uma certa concepção de medicina tem um remédio para tudo — desde dor de cabeça até dor de cotovelo — promete-se alívio imediato para isso e para aquilo nas propagandas televisivas. E, dependendo do horário, tem-se a impressão de que o problema da saúde não gira em torno da dengue ou da obesidade infantil: parece que sofremos de uma terrível epidemia de disfunção erétil...

Preocupa-me o fato de estarmos caminhando, a passos largos, para um sociedade em que tudo está à venda, em que tudo pode ser negociado e tem uma etiqueta de preço. Há muitos motivos. Mas dois deles são particularmente sensíveis à nossa realidade social: a desigualdade e a corrupção.

No primeiro motivo, numa sociedade em que qualquer coisa pode ser comprada ou vendida, o custo de vida sobe e a sobrevivência fica mais difícil para aqueles que dispõem de poucos recursos. E nem comento a situação daqueles que não têm qualquer fonte de renda: como já estão na sarjeta social, a cada dois anos, só lhes resta “vender” o voto em troca de promessas eleitorais de assistencialismo estatal.

Quanto mais o dinheiro pode comprar, num perverso exercício de lógica formal, mais importante é a sua afluência e, logo, mais preciso tê-lo ou ganhá-lo. Se a única vantagem dessa afluência fosse resumida na capacidade de comprar um iate de 115 pés, um carro esportivo italiano de 600 cavalos, uma ilha particular na Costa Verde ou férias anuais na Europa, a desigualdade de renda não teria muita importância, porque boa parte das pessoas consegue viver sem tudo isso.

Contudo, na medida em que o dinheiro passa a comprar cada vez mais e mais, como influência política, plano de saúde, segurança privada, casa em condomínio, acesso a escolas de elite e à cultura erudita e intercâmbios em faculdades no Exterior, a questão da desigualdade de renda adquire uma outra dimensão.

Quando todas as coisas necessárias e úteis podem ser compradas e vendidas, ter dinheiro passa a fazer uma diferença estratosférica. E isso é particularmente mortificante e difícil para as famílias de classes baixa e média, pois a mercantilização da vida agravou a desigualdade social e, se a moeda já tinha um natural reinado no mundo econômico, ela assumiu uma aura absolutista no mundo da vida.

O segundo motivo diz respeito à tendência corrosiva do mercado, porquanto pode ser facilmente corrompido por meio dessa prática de fixar um preço para as coisas necessárias e úteis da vida, já que ele não se limita distribuir bens. O mercado também promove certas atitudes em relação aos bens vendidos ou comprados: os produtos ecologicamente corretos são um bom exemplo disso.

Por isso, não acredito que o mercado seja inerte, lição aprendida na disciplina de economia no meu primeiro ano de bacharelado em direito. O mercado influencia e deixa sua marca que, muitas vezes, pode ser a marca da corrupção: quando os valores do mercado falam mais alto e muitos princípios que não se vinculam ao mercado, mas que devem ser respeitados, são simplesmente descartados.

Desigualdade e corrupção são os efeitos de uma sociedade em que tudo está à venda, do começo ao fim da vida: desde a comercialização de óvulos e de esperma de grife para reprodução assistida até a compra de apólice de seguro de uma pessoa idosa.

Precisamos repensar as circunstâncias em que o mercado atende ao bem comum e aquelas em que ele é um estranho no ninho. Rever o valor que atribuímos aos bens sociais que prezamos. Examinar o papel e o alcance daquelas práticas sociais que merecem permanecer alheias à ação do mercado.

É um longo e delicado debate moral, mas, pelo menos, poderíamos ter mais consciência do preço que pagamos por viver numa sociedade em que tudo está à venda. E que seja feito logo, antes que nossa sociedade, segundo Calvin, meu filósofo de cabeceira, “entre em liquidação”. Com respeito à divergência, é o que penso.

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André Fernandes