Publicado 24 de Novembro de 2012 - 5h00

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Antes, o medo, depois da trégua a inquietação: o que fazer com ela? Desde 1948, Israel e seus adversários já pactuaram uma dúzia de acordos. Nesta quinta-feira entrou em vigor um novo compromisso para interromper as hostilidades, desta vez com o grupo fundamentalista Hamas que controla a Faixa de Gaza. E agora, o que fazer com a interrupção do conflito, simplesmente esticá-la e imaginar que num passe de mágica se converterá em paz permanente?

A mais recente trégua trouxe um novo protagonista, o Egito, transformado junto com os Estados Unidos em fiador do acordo entre os beligerantes. Mas o Egito ainda não consolidou o novo regime, ao contrário: horas depois de festejar a vitória política e diplomática, o presidente Muhamed Mursi, engrenou uma marcha a ré em matéria democrática convertendo o seu governo numa entidade acima do Legislativo e Judiciário.

A trégua com o Hamas enfraqueceu substancialmente o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmud Abbas, e o seu partido, o moderado e laico Fatah que, embora sitiado e ocupado por Israel, mantém aberto uma canal de comunicação com o seu governo.

Tanto quanto o Hamas, o premier Benjamin Netanyahu considera-se o vencedor do último confronto balístico porque obrigou o adversário a negociar e aceitar o cessar-fogo. A dois meses de uma eleição crucial através da qual pretende libertar-se da coalizão com os partidos religiosos, o líder israelense opõe-se de forma drástica à ofensiva diplomática da Autoridade Palestina para obter da Organização das Nações Unidas o status de observador.

Essa iniciativa palestina não tem sido devidamente valorizada tanto na região como fora dela e está sincronizada ao marco inicial do conflito que envolve Israel e o mundo árabe: 29 de novembro. Há 65 anos, a ONU decidiu em Assembleia-Geral partilhar o território da Palestina em dois estados e assim encerrar o Mandato Britânico iniciado em 1922.

Sob a presidência do ex-chanceler brasileiro, Osvaldo Aranha, que conseguiu impedir todas as manobras para adiar a votação, o plenário da ONU aprovou a partilha por 33 votos, com treze contrários e dez abstenções. Estados Unidos e União Soviética, apesar do antagonismo na Guerra Fria, apoiaram a partilha.

Seis meses depois (14 de maio de 1948), quando o último soldado inglês deixou a Palestina, em cerimônia presidida pelo socialista David Ben-Gurion, foi proclamada a criação do Estado de Israel invadido já no dia seguinte pelos exércitos do Egito, Síria, Líbano, Iraque e Transjordânia (hoje Jordânia). Nenhuma iniciativa além da militar foi tomada pelas lideranças da população não-judia ou países do antigo Império Otomano para criar o Estado Árabe previsto na partilha.

Além da superioridade militar, Israel sempre contou com a legitimação política e moral oferecida pela decisão da ONU. Agora que a liderança do Fatah reconhece que foi errada a decisão árabe de não acatar a partilha, a intransigência do governo Netanyahu em negar aos palestinos qualquer tipo de participação na comunidade internacional joga pela janela uma valiosa chance para implementar — ou zerar — a decisão de 1947.

O fortalecimento da Autoridade Palestina é o caminho mais seguro para desarmar os espíritos e converter a recente trégua num processo de paz. É a grande oportunidade para a diplomacia brasileira completar a façanha de Osvaldo Aranha e fazer deste o último cessar-fogo.