Publicado 09 de Novembro de 2012 - 21h19

ALBERTO DINES

Cedoc/ RAC

ALBERTO DINES

Não foi a demografia, o furacão Sandy, a ínfima melhora na economia, o carisma, a retórica e sua segurança pessoal: Barack Obama foi reeleito porque ofereceu uma mensagem sedutora, clara, embora moderada. E com ela desbaratou um dos mais perversos e perigosos inimigos internos que a Revolução Americana já enfrentou desde a sua vitória em 1774: o Tea Party, versão 2.0.

E foi o Tea Party o maior responsável pela derrota de Mitt Romney: se o candidato republicano não tivesse capitulado à histeria da ala mais radical do partido teria conseguido persuadir os setores conservadores mais esclarecidos a reagir à tentação totalitária que ameaçava tomar conta do país. A prova está no endosso inequívoco oferecido a Obama pelas duas maiores publicações globais de economia e negócios: o semanário The Economist com 169 anos de existência e o famoso diário em papel cor de salmão, Financial Times, o caçula da família Pearson, com 124.

Estão longe do conceito de “progressistas”, ambos são adeptos intransigentes do capitalismo e do liberalismo econômico. Porém jamais subtraíram dos leitores as trapalhadas e trapaças cometidas nos altos escalões das empresas do mercado de capitais. Foram essas trapalhadas e trapaças que jogaram os EUA na atual recessão. Não cobraram de Obama as promessas não cumpridas da primeira campanha porque em 2008, em seguida à sua espetacular vitória, desabou o castelo de areia construído pelos economistas do grupo Bush. Sabem que suas intervenções reguladoras foram decisivas para evitar a débâcle. O Estado que Obama defende não é um Leviatã desumano, seu combustível é a solidariedade.

O prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, dono de um dos veículos jornalísticos mais importantes da área econômica, a Bloomberg News, também endossou a candidatura de Obama (era republicano, depois entrou no mini-grupo dos independentes). Motivo: o empenho do presidente na questão ambiental que o Tea Party e os republicanos menos esclarecidos e mais religiosos teimam em ignorar. Sandy acordou-os.

Barack Obama não é socialista e sequer social-democrata, assim como foi classificado pós-racial também pode ser considerado pós-ideológico. Herdeiro da tolerância iluminista, adversário das segregações e supremacias, razão pela qual se tornou idolatrado pelas minorias.

Quer acabar com a miséria no país mais rico do mundo, quer que os mais afluentes paguem mais impostos do que os remediados, no que é apoiado com entusiasmo pelo bilionário Warren Buffet.

Membro da Trinity United Church of Christ de Chicago jamais se preocupou com religião: seu pai, economista queniano, muçulmano não observante, sua mãe, antropóloga americana, ateísta. Obama menciona Deus porém não abusa, é capaz de jurar com a mão na Bíblia, mas incapaz de profanar a essência secular do sistema democrático.

Esta tolerância, abertura e transparência transformam-se naturalmente em vontade de acertar. Ela é que empolga. Seu carisma é a sua sinceridade. Não embroma, não engana, trata as massas e os interlocutores como seres inteligentes que respondem da mesma maneira. Perdeu o primeiro debate com Mitt Romney e ganhou os demais porque sua entonação é de quem busca a verdade.

Graças a isso, converteu-se no norte-americano mais querido no mundo. A fama e a celebração desta vez encontraram um conjunto de valores que vale a pena venerar.