Publicado 05 de Novembro de 2012 - 9h00

Por Milene Moreto

O candidato derrotado do PT nas eleições deste ano em Campinas, Marcio Pochmann, participa de evento de campanha ao lado de Lula

Rodrigo Zanotto/28set2012/Especial para a AAN

O candidato derrotado do PT nas eleições deste ano em Campinas, Marcio Pochmann, participa de evento de campanha ao lado de Lula

Depois de 12 anos no poder, o PT de Campinas vai ter que reaprender a fazer oposição. O partido integrou os últimos quatro governos municipais em Campinas e, agora, derrotado nas urnas, já anunciou disposição de voltar a se ser a principal força da oposição ao prefeito eleito, Jonas Donizette (PSB).

Parte dos integrantes do PT ocupa, em cargos de comissão (sem concurso público), o Palácio dos Jequitibás desde o governo do prefeito Antonio da Costa Santos, o Toninho (PT) — assassinado em 2001, seu primeiro ano de mandato. Eles passaram pelas gestões de Izalene Tiene (PT), Hélio de Oliveira Santos (dois mandatos, pelo PDT) e Demétrio Vilagra (petista que ficou no cargo alguns meses, após a cassãção de Hélio) e se tornaram quase “comissionados de carreira”. Agora, terão de abrir espaço para a entrada da equipe do prefeito eleito.

Na Câmara, os parlamentares petistas nos últimos anos trabalharam para blindar o Executivo e criaram dificuldades principalmente para o PSDB — aliado do próximo prefeito —, a quem creditam um fato mais recente, o que chamam de “golpe” da cassação de Demétrio, no ano passado.

Em 2013, os quatro vereadores eleitos pelo PT pretendem abrir debates sobre privatização no poder público campineiro e afirmam que quem governará Campinas serão os tucanos, e não o PSB.

Com a chegada de Jonas — aliado dos tucanos — ao poder, caberá ao PT agora trabalhar p[/TEXTO]ara fiscalizar os atos do pessebista e fazer frente à nova gestão. O PSOL deve unir forças aos petistas nessa composição.

Jonas conta com 20 dos 33 parlamentares da Casa na sua aliança. Representantes do PT na Câmara a partir de 2013 garantem que vão abrir discussões polêmicas, como a da privatização na saúde e educação, e que vão continuar a indicar ao próximo prefeito as “demandas da população”. Para eles, se não houver retorno por parte do governo, não haverá “administração para o povo”.

Para os vereadores, é importante que o Executivo faça melhorias em redutos eleitorais onde os parlamentares tiveram votos. Para isso, uma ferramenta da Casa chamada indicação aponta a necessidade de lombadas, pavimentação, iluminação e melhorias no município ao Executivo. É nesse ponto que os parlamentares que se colocam na oposição saem prejudicados. Outro fator importante é a indicação de servidores comissionados nas prefeituras. Os parlamentares ao longo dos últimos anos lotearam as administrações regionais (ARs) e colocaram a máquina pública para trabalhar nas áreas que eram de seus interesses.

No próximo ano, o PT vai contar com quatro cadeiras na Câmara. Duas delas serão ocupadas por parlamentares que já atuam neste mandato: Jaírson Canário e Ângelo Barreto. Carlos Roberto de Oliveira, o Carlão, e Pedro Tourinho ingressam na Casa.

Para Barreto, o mais experiente dos parlamentares na nova composição, o governo de Jonas será comandado pelo PSDB, portanto, o papel dos parlamentares na Casa será debater as privatizações — consideradas pelos petistas uma “marca” tucana —, principalmente na Educação e na Saúde. “Vamos pegar o histórico de Jonas. Ele possui uma relação muito estreita com o PSDB, com o governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB). O PT recebeu 42% dos votos. Não é um partido que está morto. Saímos do 1%”, disse.

Barreto afirmou que não enxerga problemas em conseguir melhorias pela cidade mesmo na oposição. “Alguém que ajudou a construir o partido não se vende por cargo. Nós vamos apontar as áreas onde será necessário fazer um trabalho do Executivo. Se o prefeito não quiser fazer, que se entenda com o povo”, disse o parlamentar reeleito.

Oposição

Apesar da expectativa de que os petistas façam agora uma oposição encorpada, Ari é cauteloso e disse que a frente opositora deve ser pragmática e ter objetivo. “Nós nunca fizemos uma oposição radical apenas por fazer. Nós vamos cobrar e agir. Quando a gente acha que a conciliação com o prefeito não é possível, é porque se trata de um governo do PSDB”, disse Ari.

Para fazer frente ao novo governo, o diretório do PT já possui reuniões agendadas com a bancada da Câmara que assume o mandato no próximo ano. As reuniões servirão para alinhar os representantes do partido à postura do PT na cidade. “Nós pretendemos ter uma atuação clara, diferente, de bancada”, diz Ari.

"Não vejo problemas com o PT", afirma Jonas 

Logo após o resultado das urnas, quando Jonas se consolidou prefeito eleito, o pessebista disse que espera uma “oposição saudável” à sua gestão. Afirmou também que não enxerga problemas em dialogar com o PT. As rusgas entre petistas e a coligação de Jonas se intensificaram quando o pessebista se aliou aos tucanos. Depois disso, o uso da imagem da presidente Dilma Rousseff por Jonas no seu programa eleitoral foi praticamente uma declaração de guerra contra o PT. O então candidato dizia que tinha o apoio do governo federal, enquanto seu principal rival nas urnas, Marcio Pochmann (PT), afirmava o contrário. Dilma veio a Campinas declarar apoio a Pochmann.

Jonas acredita que vai conseguir apaziguar os ânimos com o respeito que diz ter pela oposição. O pessebista quer contar também com a influência dos interlocutores do PT na esfera nacional para lidar com os petistas campineiros. Mesmo assim, o prefeito eleito é categórico ao dizer que enfrentará divergências políticas. “Se for uma oposição construtiva, crítica e para o bem da cidade, eu acho que eles estão no papel deles e terão respeito da minha parte. Eu estou retomando agora em Brasília o meu cargo de deputado federal. Eu quero pedir o apoio da bancada do PT para trazer investimentos para Campinas”, disse o prefeito eleito em entrevista ao Correio na última semana.

Partido vê golpe na cassação de Demétrio 

Para os petistas, a cassação de Demétrio Vilagra (PT) em dezembro do ano passado — após envolvimento com o escândalo do Caso Sanasa — foi um “golpe” que teve como pano de fundo uma articulação entre PSB e PSDB, mas com participação direta do atual prefeito, Pedro Serafim (PDT). As lideranças petistas sustentam que Demétrio não tinha qualquer relação com o esquema de corrupção na Sanasa apontado pelo Ministério Público (MP). Para os líderes, a retirada do mandato do então chefe do Executivo foi articulada para favorecer Serafim, então presidente da Câmara, e para abrir caminho a Jonas na eleição deste ano. Demétrio foi cassado por quebra de decoro, por não ter tomado nenhuma atitude sobre o esquema de corrupção quando assumiu o lugar de Hélio de Oliveira Santos (PDT) na Prefeitura, durante a ausência do pedetista. Antes da cassação de Demétrio, Hélio foi cassado pela Casa com o apoio dos petistas. Com as cassações, Serafim assumiu interinamente o Executivo até a Justiça determinar uma eleição indireta. No pleito realizado no Legislativo, o PSB lançou candidatura própria encabeçada por Arly de Lara Romêo, que saiu derrotado. No processo eleitoral, os tucanos apoiaram Serafim e não Arly. O pedetista foi vitorioso e termina o mandato-tampão em 31 de dezembro.

Rivalidade com o PSB começou com Bittar  

Primeiro prefeito eleito pelo PT em Campinas rompeu com partido e depois se filiou à sigla socialista 

A rivalidade entre PT e PSB na cidade, reforçada agora com a coligação de Jonas Donizette com os tucanos, teve início há 21 anos, quando Jacó Bittar, então filiado ao PT, ocupava o posto de prefeito. Na época, Bittar tinha Toninho como vice. Em 1991, por não concordar com as posturas adotadas durante a gestão de Bittar, o que envolveu sua desfiliação, um movimento arquitetado por Toninho fez com que todos os petistas abandonassem seus cargos no Executivo. O episódio ficou conhecido como “Jim Jones campineiro”, um suicídio coletivo do PT na Administração (em alusão ao caso em que o líder de uma seita religiosa levou mais de 900 seguidores a um suicídio coletivo na Guiana em novembro de 1978).

O governo de Bittar em Campinas foi uma das primeiras experiências do PT no Brasil e considerado de extrema importância para a história do partido. O presidente local do PT, Ari Fernandes, afirmou que a ruptura com os petistas ocorreu pelas mãos do próprio Bittar. “Primeiro, Jacó foi prefeito e Toninho vice, as divergências que haviam eram entre a postura do Jacó Bittar com as diretrizes petistas, o que causou muita discussão e terminou na ruptura que se deu pelo lado do prefeito. Jacó se desfiliou do PT. A partir daí, nós iniciamos uma discussão no partido e, em 1991, de forma polêmica, a maioria entendeu que todos deveriam entregar os cargos”, disse.

O rompimento do PT com Bittar causou o que seria a primeira rivalidade com o PSB. Com a orientação para os petistas para que os filiados se desligassem do governo, parte dos então comissionados da Prefeitura decidiu que permaneceria no poder. Esses militantes então foram expulsos da legenda. “Nós perdemos muita gente. Muitos deles hoje pertencem ao diretório do PSB”, disse Ari. Bittar se filiou ao PDT e, posteriormente, ao PSB.

Com a saída de Bittar do governo, o próximo prefeito eleito foi José Roberto Magalhães Teixeira (PSDB), que tinha o PT como oposição ferrenha. O mesmo ocorreu com Francisco Amaral (então PPB, hoje PMDB). Os petistas só voltariam ao poder em 2001, pelas mãos de Toninho. Muitos permanecem até hoje, mesmo com a orientação petista de não se aliar ao atual prefeito Pedro Serafim.

 

Escrito por:

Milene Moreto