Publicado 25 de Novembro de 2012 - 5h00


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"Pais e professores têm que ser parceiros. Eu falo nas minhas palestras que quando o pai diz 'vinho' e a mãe diz 'água', o filho desanda"

Em seu livro mais recente, o 30º da carreira, 'Pais e Educadores de Alta Performance' (Editora Integrare), o psiquiatra Içami Tiba defende uma educação que une esforços de pais e educadores para transformar a realidade brasileira. Autor do sucesso 'Quem Ama, Educa!', ele já vendeu mais de 4 milhões de exemplares – 100 mil referem-se ao último título, no qual explica que falta aos pais e professores preparo para orquestrar uma educação formadora de valores e competências.

Em entrevista à Metrópole, Içami Tiba ressalta que quando se deixa de ensinar, de exigir e de aplicar as consequências, constrói-se a ignorância, muito mais cara ao indivíduo do que a construção do conhecimento. Mas nem tudo está perdido e, num mundo com tantas incertezas, o preparo do homem de amanhã já começou. “Temos que fazer com que as crianças tenham disciplina, gratidão, solidariedade, humildade e educação, valores que não se medem. Aí entra o conceito de alta performance”, avalia.

Metrópole – Amar não é o suficiente para educar. O que é preciso?

Içami Tiba – É preciso capacitar. A mulher trocou seu “chip” quando se emancipou, mas não trocou o “chip” de mãe. Continua a mesma mãe antiga e jurássica do passado. Só que, hoje, para entrar em pânico, ela só tem algumas horas marcadas e entra em conflito porque quer largar tudo e voltar para casa, mas não pode fazer isso porque é emancipada. Do pai tiraram o “chip” e ele ainda não o encontrou. Aí, pensa que ser pai é igual a ser mãe, fazer o que a mulher faz, mas não é, os hormônios são diferentes. O pai quer pegar a criança e jogar para o alto; a mãe quer por no colo e embalar. O pai está tateando a paternidade, meio perdido, assim como a mulher que se emancipou. É por isso que há que se ter competência e é por isso que falo de alta performance, de medir o não mensurável, de fazer o melhor possível. Não basta amar, é necessário competência para lidar com essa situação em pouco tempo e ensinar. A educação é altamente sustentável – quem aprende uma vez, não vai cometer o erro de fazer de conta que não sabia –, mas é preciso haver constância e consequência. Só que não é o que acontece. A ordem de mãe não tem sustentabilidade. Logo, ela própria faz o que proibiu a filha de fazer.

O “não” deve ser uma constante, certo?

Isso. O “não” tem que ter valor de “não”. Os pais sentem culpa, o que é contraditório, mas eles não existem só para servir os filhos. Existem também para educá-los. A criança precisa ser contrariada para ser educada, não se pode deixá-la fazer tudo o que tem vontade.

Por que professores e educadores têm dificuldade em lidar com os alunos?

Porque as crianças recebem o reforço dos pais para fazer o que têm vontade. Os adultos vão à escola querendo que ela mude conforme o desejo dos filhos. Eles colocam as crianças na escola para educá-las, mas não concordam com o que a instituição quer fazer. E reclamam com a escola, brigam com os professores... É com se dissessem que o mundo tem que se adaptar aos seus filhos, não as crianças ao mundo. Todo lugar tem regras, por que, então, a escola tem que mudar as suas?

Qual é o papel da família e da escola na educação dos pequenos?

Ambos têm que ser parceiros, pois o filho é o mesmo aluno. O pai e a mãe também devem ser parceiros. Um não pode brigar com o outro para educar a criança. Eu falo nas minhas palestras que quando o pai diz “vinho” e a mãe diz “água”, o filho desanda. Se isso acontece na escola, o aluno desanda.

O senhor fala que a educação em nome do amor envolve quatro fases. Quais são?

A primeira fase é a do amor dadivoso, em que o filho ganha de graça. À medida em que ele começa a entender, este tem que ser substituído pela meritocracia (merecimento). Mas os pais não entendem isso e ficam fazendo o amor de graça para o filhão de 30 anos, que vive em casa, como se ainda usasse mamadeira. A falha não é só dos filhos, mas dos pais, que querem continuar sendo úteis e ficam com pena deles. Só que, se você ficar com pena do seu filho, ele fica fraco. O amor dadivoso, pela meritocracia, leva a relação custo-benefício para que os pais ensinem o que o filho não sabe. Então, o segundo é o amor que ensina. Depois que ensinou uma vez, não é para ficar repetindo. Há que se exigir que o filho faça, o que leva ao amor que exige. Quando cobrar e não fizer, há consequências, e aí estamos falando do amor de consequências, o que torna a pessoa responsável. A lógica é “se eu não fizer, algo acontece”.

Comente o fato da meritocracia ser um caminho para a educação.

Tudo é mérito. Se o filho faz aniversário e o irmão também ganha presente, desqualifica-se o presente de aniversário. A meritocracia é um cuidado que os pais devem ter porque o mundo é muito justo. Ninguém recebe uma promoção de graça, recebe aquele que merece. Cada vez mais é assim.

Qual o melhor caminho para se aplicar as consequências?

A consequência não é castigo, é uma oportunidade para o filho aprender a fazer. A ordem tem que ser mantida, mas deve ser bem explicada para se ter certeza que foi entendida. Não é o castigo que ensina, é a possibilidade que a criança tem de corrigir o erro. Quebrou, deve tem que consertar. Xingou, precisa pedir desculpas.

Pais e escolas que aplicam a cidadania preparam melhor os jovens para serem mais éticos. Como estimular isso em casa?

Isso é o que eu sempre falo em meus livros, como no 'Quem Ama, Educa!', que é a cidadania familiar. Não se pode fazer em casa o que não se pode fazer fora dela. E deve-se fazer no lar tudo aquilo que se precisa fazer fora.

E o que o senhor diz sobre as drogas?

A educação como está sendo dada hoje cria os filhos para que usem drogas. Porque eles podem fazer o que quiserem e não acontece nada. Por que se ele vai para a rua não pode usar uma coisa que todo mundo fala que é gostoso? Em compensação, numa educação pautada em valores, a pessoa fica protegida, pois não vai querer usar.