Publicado 10 de Novembro de 2012 - 10h48

Insatisfeitos com a obrigatoriedade do exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), formandos de três universidades — Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e Faculdade de Medicina de Marília — boicotarão a prova de domingo (11).

Ontem, o conselho tentou impedir o boicote divulgando a informação de que as notas ficarão arquivadas na pasta de informações do futuro médico e poderão vir a prejudicá-los. Porém, a atitude foi repudiada e a “ameaça” foi esclarecida em seguida pelo próprio órgão, que reiterou que o desempenho na prova não impede o registro nem o exercício da profissão.

O exame foi criado em 2005 e, sem o certificado de participação, o estudante não obtém o registro profissional no Conselho paulista. Entretanto, o teste não exige nota mínima para aprovação. Segundo a lei, o Cremesp não pode condicionar o registro à aprovação em um exame. Isso exigiria uma lei federal. Na Unicamp, ao menos 80 dos 110 formandos boicotarão a prova. De acordo com o formando e apoiador do Centro Acadêmico Adolfo Lutz (CAAL) Fabrício Costa, os estudantes devem selecionar a opção “B” em todas as questões do exame. Além disso, os alunos de outros anos farão protestos com cartazes e distribuirão chocolates com nomes que iniciem com a letra “B”, em frente aos locais de prova.

Os estudantes defendem a criação de um exame continuado, com avaliação nos 12 semestres do curso, que teste o conhecimento prático e teórico. “Só assim os alunos serão avaliados de verdade”, disse Costa. O boicote simboliza a insatisfação dos alunos com a avaliação que, nas palavras dele, não contribui nem para a formação do médico nem para a saúde no País.

O Conselho Municipal de Saúde informou ontem, em uma nota, que apoia totalmente a decisão dos estudantes de medicina Unicamp de boicote ao exame. Para o conselho, os problemas da Educação Médica transcendem as análises realizadas pelos defensores do exame e a obrigatoriedade dessa prova não resolverá os problemas das escolas médicas e muito menos os do sistema de Saúde.

“Os problemas do Sistema de Saúde e o aumento do número de erros dos profissionais encontram sua origem na precarização das relações de trabalho e intensificam cada vez mais, na extensa jornada de trabalho que esses profissionais têm que se submeter, na falta de financiamento do SUS, na falta de infraestrutura adequada para o exercício da prática em saúde, na falta de insumos necessários para uma boa prática profissional, entre muitas outras coisas”, ainda conforme a nota.

O órgão defende uma “avaliação da Educação Médica que possibilite diagnosticar os problemas pelos quais estamos passando, que proponha soluções e possa atuar nesses problemas. Acreditamos na avaliação da instituição, do corpo docente, das políticas de permanência estudantil, dos projetos pedagógicos e dos estudantes. Todo apoio ao boicote organizado ao exame do Cremesp”, prossegue o comunicado.

 

Exame

O Cremesp estima que 2.460 alunos sejam avaliados em todo o Estado. A prova tem objetivo de analisar o conhecimentos nas especialidades médicas básicas dos formandos. O exame foi criado em 2005 e passou a ser obrigatório este ano devido à “queda acentuada e progressiva na qualidade do ensino médico”, segundo o coordenador do exame do Cremesp, Bráulio Luna Filho.

O conselho defende não apenas a obrigatoriedade, mas uma nota mínima para a aprovação dos formandos. “Assim como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) faz, o Cremesp busca ser um parâmetro de qualidade da profissão no país. A obrigatoriedade é apenas o primeiro passo”, afirma nota oficial divulgada pelo órgão.

O exame do Cremesp é composto de 120 questões objetivas de múltipla escolha, com cinco alternativas cada. A prova de amanhã compreenderá nove áreas do conhecimento médico.