Publicado 10 de Novembro de 2012 - 18h13

Eliene Brito com as filhas na área invadida

Edu Fortes/ AAN

Eliene Brito com as filhas na área invadida

O Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD) está expandindo a invasão do terreno abandonado do extinto Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Mais 90 famílias se instalaram no local essa semana. Agora, são cerca de 220 famílias que montaram acampamento na área que abrange pelo menos três bairros: a Vila Pompéia e Cidade Jardim de uma lado da Rodovia Anhanguera e a Jardi Miranda do outro lado da rodovia.

Sexta-feira (9), lideranças do movimento faziam medições no terreno e veículos carregados com madeiras e placas e cavaletes de propaganda eleitoral descarregavam o material para a montagem de mais barracas improvisadas com lona.

“Estamos com 220 famílias cadastradas. Nosso movimento é organizado, escolhemos essa área porque ela pretence ao governo federal e está abandonada há muito tempo”, afirmou um dos coordenadores da ocupação José Aparecido.

Essa foi a segunda ocupação do MTD em dois meses apenas em Campinas. Líderes do movimento contaram ter mapeado 218 terrenos de propriedade da União em Campinas e não descartam novas ocupações. Em setembro, 250 famílias invadiram um terreno da União no Jardim Campos Elísios e permanecem no local até hoje.

Uma das famílias que está instalada no local é a da viúva Luzia Sabino Barbosa, de 61 anos, que perdeu o barraco em que morava após um incêndio na favela da Gleva B.

“Saí de lá sem nada, perdi tudo e a Prefeitura não me ajudou. Então fui morar na rua. Dormia na igreja e comia junto com os drogados no terminal”, contou. Luzia vive com Juliana da Silva, uma menina de 10 anos que ela cria como se fosse sua filha. “O pessoal me ajudou a montar esse barraco e eu achei esse colchão no lixo. Dobrei ele ao meio para não machucar as costas com as pedras”, afirmou.

Juliana está doente, sofre de asma. “Ela não foi à escola hoje porque está mal e não pode pegar chuva”, comentou.

Sua situação é dramática, sem receber pensão do marido, ela esmola para conseguir comida. No local não há água ou energia elétrica. “Eu tomo banho numa mina que tem aqui perto. Alguém segura a lona para a ninguém ver. E o banheiro é o mato mesmo”, diz. Mesmo assim, Luzia diz que não tem motivos para reclamar. “A vida é dura, mas tem gente pior que eu”, contou. Ela espera que a Cooperativa de Habitação Popular de Campinas (Cohab) consiga uma casa. “Eu vim aqui porque não tenho para onde ir mesmo”, afirmou.

Outra família que está morando no local é a de Eliene Brito. Ela está instalada em um barraco com a irmã e suas duas filhas, Larissa de 2 anos e Laís de 8 meses. “Morava no Monte Cristo e pagava R$ 600 de aluguel, mas não tenho condição. Só o meu marido está trabalhando e o aluguel é muito caro”, afirmou.

Moradores que moram às margens do VLT temem que o local se transforme em uma favela. “Todos os moradores estão me perguntando o que está acontecendo. Está todo mundo preocupado que isso vire uma favela”, afirmou Alexandre Nanni, síndico de um prédio vizinho à ocupação.

A dona de casa Zilda de Araújo disse que se sente insegura com a invasão. “Não sabemos quem está aqui do lado. O VLT está abandonado e temos que conviver com todo tipo de problema. Primeiro queriam colocar um lixão, depois os ciganos tentaram invadir, aí queriam encher o lugar com material de reciclagem. Agora é essa história, mas ainda tem o problema dos viciados que usam a estrutura abandonada do VLT para consumir drogas”, reclamou.

A Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) notificou extrajudicialmente o proprietário da área e as cerca de 100 pessoas que ocuparam o local. Os ocupantes já foram informados por técnicos da Sehab que terão de deixar o terreno.

A reportagem procurou a Superintendência do Patrimônio da União do Estado de São Paulo, mas ninguém foi localizado para comentar o assunto.