Publicado 29 de Novembro de 2012 - 8h36

A advogada Lenora Panzetti e as famílias da região de Campinas que irão brigar na justiça pela guarda definitiva das crianças baianas

Edu Fortes/AAN

A advogada Lenora Panzetti e as famílias da região de Campinas que irão brigar na justiça pela guarda definitiva das crianças baianas

As famílias da região que detêm a guarda provisória de cinco crianças da cidade baiana de Monte Santo afirmaram ontem, em entrevista exclusiva ao Correio, que irão lutar pela guarda definitiva. Na terça-feira, o juiz Luiz Roberto Cappio revogou as guardas provisórias e determinou o retorno dos menores à família biológica. Os pais adotivos afirmaram que estão sofrendo ameaças, assim como a advogada deles, Lenora Panzetti. A advogada de Silvânia Mota da Silva, mãe biológica das crianças, defende o retorno imediato dos irmãos a Monte Santo. Ela afirmou que o processo de adoção tratou-se de uma “aberração” e uma “sucessão de erros” judiciais.

Pela primeira vez desde que a história veio à tona, em outubro, as quatro famílias da região — três de Indaiatuba e uma de Campinas, que preferiram deixar seus nomes em sigilo — falaram sobre o processo de adoção que envolve os cinco irmãos da Bahia. Eles negaram que tenham participado de um esquema de tráfico de pessoas.

“Eu estou cansada de ouvir o porquê fomos para lá (Bahia) adotar uma criança. Eu e o meu esposo estávamos registrados no Cadastro Nacional de Adoção, que abrange todo o País. Tivemos que responder o Estado onde queríamos adotar, e não houve objeção quando escolhemos a Bahia. Levamos vários documentos e foi tudo aprovado pela Justiça”, disse uma das mães, que não conteve o choro. “Eu sei como meu filho chegou e o que encontrei dentro daquele Fórum (em Monte Santo). E o juiz, quando deu a guarda provisória, deixou claro que as crianças estavam sendo retiradas porque não são pobres, mas porque estavam em situação de risco”, declarou.

As famílias também afirmaram estar sofrendo ameaças. “Hoje sou uma prisioneira dentro da minha própria casa”, disse uma mãe. A mulher que entrou com processo de adoção da criança menor, que hoje está com um ano e nove meses, também se diz ameaçada. “Não aguento mais ouvir as pessoas me perguntando quanto paguei pela minha filha, que sou ladra.”

Os pais afirmaram estar assustados com a repercussão dada ao caso e negaram qualquer ilegalidade no processo.

“Por que está acontecendo isso, o que a gente fez? Traficante, membros de quadrilha; dessas coisas que fomos chamados, quando só queríamos dar amor a essas crianças”, afirmou outra mãe.

“Eu só quero formar um cidadão de bem. Ele sempre vai saber a verdade, nunca escondemos nada dele”, disse.

Todas as famílias afirmaram que a adaptação das crianças ocorreu de forma natural e desmentiram a história de que eles teriam sido retirados de sua casa em Monte Santo, à força. “Se isso tivesse acontecido seria o contrário. Eles não estariam bem”, avaliou.

Questionamentos

Sobre a decisão do juiz que autorizou o retorno das crianças dos cinco irmãos à Bahia, os pais disseram estar perplexos. “É muito assustador tudo o que está acontecendo. Por que ele revogou a guarda? Porquê?”, questionou uma das mães. “Eu só quero uma coisa: ficar com o meu filho. Quero que todos fiquem com as crianças para sempre e vamos lutar por isso”, afirmou o casal que adotou uma criança que hoje está com dois anos e dez meses.

“Como eu vou falar para o meu filho: a mamãe te ama, mas vou ter que deixar você ir embora. É impossível. Eu não me arrependo de nada. Faria tudo de novo. Sei que não fiz nada de errado e hoje tenho o meu filho e espero poder criá-lo e transformá-lo em uma cidadão de bem.”

 

Advogada

A advogada das famílias voltou a afirmar que a Justiça apenas determinou a retirada das crianças do pai biológico, através de medida protetiva, e posteriormente a guarda provisória, em virtude dos maus tratos sofridos.

“O menino de um ano e meio, que hoje tem quase três, tinha marcas de queimaduras que aparentemente foram provocadas por cigarro, além de infecção intestinal e estomacal. Tinha um corte profundo na orelha, que estava infeccionado. As crianças vieram com vários problemas de saúde e tudo consta nos autos”, afirmou Lenora. “Não queremos julgar a família biológica, mas a realidade encontrada foi essa”, disse a advogada, que irá recorrer da decisão que revogou as guardas provisórias.

“Houve processo legal, sim, eu reafirmo. Havia medida de proteção, para que as crianças fossem encaminhadas a um abrigo pois corriam risco de vida, devido aos problemas de saúde, com base nos relatórios do Ministério Público e Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social).” Ela reiterou que todas as famílias participavam de reuniões específicas para pais que desejam adotar crianças e estavam inseridas no Cadastro Nacional de Adoção.

“Se existiu irregularidades, todas essas pessoas foram vítimas, principalmente as famílias daqui. E eu confio na Justiça e quero que a verdade venha à tona. Não é justo que as famílias sejam crucificadas da forma como foram.” Lenora disse que também sofreu ameaças após a publicação de que as crianças que estavam na região seriam fruto de um esquema de tráfico de pessoas, investigado pela Câmara dos Deputados. “Quero usar o meu caso para mostrar o que acontece com essas famílias, que precisam preservar essas crianças.”