Publicado 27 de Novembro de 2012 - 8h16

Movimentação em frente à sede da PF em São Paulo, quando foi deflagrado a Operação Durkheim: 400 policiais mobilizados

Marco Ambrósio/AE

Movimentação em frente à sede da PF em São Paulo, quando foi deflagrado a Operação Durkheim: 400 policiais mobilizados

Uma operação deflagrada ontem pela Polícia Federal (PF), que prendeu 33 pessoas em cinco estados suspeitas de integrarem duas organizações envolvidas com crimes financeiros e venda de dados sigilosos, teve origem em uma investigação iniciada em Campinas. As prisões foram feitas nos estados de São Paulo, Pará, Goiás, Pernambuco e Rio de Janeiro, e também no Distrito Federal, mas os nomes das cidades envolvidas não foram informados.

Foi por causa de um inquérito de 2010 da Corregedoria da Polícia Civil na cidade, que apontou um agente da PF como integrante de uma quadrilha que praticava extorsão contra políticos e empresários a partir de informações sigilosas das quais tinha acesso, que a PF desmantelou o esquema que teria movimentado só este ano cerca de R$ 20 milhões. O policial se suicidou, após ser acusado de furtar um computador no Ministério Público (MP), com informações de apurações.

Os integrantes da quadrilha desbaratada ontem pela Operação Durkheim — nome do sociólogo francês Émile Durkheim, autor do livro O Suicídio — usariam dados sigilosos obtidos a partir de espionagem para chantagear os envolvidos nas investigações e mandariam dinheiro ilegalmente para o Exterior. O bando também é acusado de comercializar dados telefônicos, extratos bancários e fiscais com arapongas e detetives. E é aí que entra a investigação iniciada em Campinas.

O inquérito de 2010 da Corregedoria da Polícia Civil identificou o agente da PF Richard Fragnani de Moraes como o responsável pelo furto de um computador da sede do Ministério Público que continha informações a respeito de investigações sobre fraudes em licitações na região de Campinas.

Ele foi um dos agentes que integraram uma operação da PF na época apelidada de Manilha, que compartilhava informações com uma outra investigação em andamento pela Promotoria que também apurava fraudes em contratos em prefeituras na região de Campinas e em outros estados. O agente teve acesso a dados sigilosos e sabia onde um dos computadores com as informações estava guardado na sede do MP.

Os dados gravados no equipamento eram sobre as ações do empresário José Carlos Cepera e dos lobistas Maurício Manduca e Emerson de Oliveira em fraudes em licitações em diversas prefeituras pelo País. Os três também são réus do processo que ficou conhecido como Caso Sanasa, que teria desviado cerca de R$ 30 milhões só em Campinas.

O policial teria furtado o computador e junto de comparsas usado essas informações para tentar extorquir o prefeito de Indaiatuba, Reinaldo Nogueira (PMDB), em R$ 2 milhões, afirmando que poderiam livrá-lo das investigações do MP que apontavam que o esquema de Cepera também teria agido na cidade. Nogueira confirmou ao MP que foi até um escritório e teria sofrido o achaque. No entanto, negou qualquer participação no esquema de fraudes de Cepera. O prefeito de Hortolândia, Ângelo Perugini (PT), também foi alvo das tentativas de extorsão, mas também nega participação em qualquer fraude que possa ter ocorrido.

O agente da PF acabou sendo encontrado morto em dezembro de 2010, dois dias depois de prestar depoimento na Corregedoria da Polícia Civil. A apuração apontou para suicídio, conclusão a que também chegou a investigação da PF, com base em laudos e depoimentos. Ele teria se matado para preservar a família.

Apreensões

De acordo com os delegados da operação, o agente chegou a dar informações quanto à participação de outros policiais no esquema, levando à identificação dos outros integrantes da quadrilha. A ação resultou também em 87 mandados de busca e a apreensão de 27 veículos de luxo. Em São Paulo, foram presos também dois policiais civis e um militar.

Além deles, um policial federal também foi preso pela acusação de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e um outro agente por corrupção. Os dois foram afastados liminarmente de suas funções. Entre os alvos das tentativas de chantagem aparecem dois prefeitos, um senador, dois desembargadores, uma emissora de TV, um banco e diversas empresas. Ao todo, são 180 vítimas. A PF não divulgou nomes por conta da investigação estar sob sigilo.