Publicado 25 de Novembro de 2012 - 5h00

Apesar de os adolescentes conhecerem os riscos da web, algumas situações os tornam ainda mais vulneráveis

Divulgação

Apesar de os adolescentes conhecerem os riscos da web, algumas situações os tornam ainda mais vulneráveis

“Vi amigas terem problemas com fotos postadas por outras pessoas e que as comprometiam e não eram legais. E ainda serem maltratadas pelo Facebook na frente de todo mundo que tem acesso. Por isso, é preciso ter cuidado com quem você se relaciona.” A constatação é da estudante Giovanna Mazará, de 12 anos, parte de uma geração conectada 24 horas por dia, cercada pelas novas tecnologias e, consequentemente, pelos problemas que delas vêm.

Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br) aponta que 22% das crianças e adolescentes entrevistados declararam ter vivido situação de incômodo ou chateação nos últimos 12 meses. Com 47% deles, o fato ocorreu na internet. Os dados constam do TIC Kids Online Brasil, levantamento cujo objetivo era medir o uso e os hábitos da população brasileira de 9 a 16 anos usuária de internet em relação às tecnologias de informação e de comunicação, focando oportunidades e os riscos relacionados. Foram ouvidos 1.580 crianças e adolescentes e 1.580 pais, entre abril e julho de 2012.

Ainda de acordo com o trabalho, 47% das crianças e adolescentes do País costumam acessar a rede diariamente e 70% deles participam de rede social. A pesquisa mostra também que o uso da internet acontece principalmente na escola (42%), seguida por domicílios (40%), lan houses (35%) e celulares (18%). As principais utilizações incluem realização de trabalhos escolares (82%), visitas a redes sociais (68%), acesso a vídeos no YouTube (66%) e jogos on-line (54%). Muitos deles utilizam o recurso para postar conteúdos – 40% publicaram fotos, vídeos ou músicas; 24% escreveram mensagens em sites e 10% deixaram recados em blogs. Em relação à segurança, 55% disseram saber encontrar informações sobre como usar a internet de forma segura e 41% afirmaram saber comparar os sites para verificar se as informações são verdadeiras.

Mesmo com todo esse conhecimento anunciado, a TIC Kids Online Brasil revelou que 23% dos usuários de 11 a 16 anos tiveram contato na internet com alguém que não conheciam pessoalmente – desses, cerca de ¼ declarou ter encontrado pessoas com quem o primeiro contato deu-se na internet. Na faixa dos 9 aos 10 anos, 5% tiveram contato na rede com alguém que não conheciam pessoalmente.

Orientação nunca é demais

Nunca aceitar o convite de estranhos para conversar na web é uma das recomendações da jornalista e publicitária Renata Della Volpe ao filho, Diogo Della Volpe, de 16 anos. “A orientação é verbal, não bloqueio nada. Apenas converso para que ele não entre em sites que não conhece ou dos quais não tem indicação. Digo para que não acesse conteúdo impróprio, saiba com quem conversa e nunca aceite estranhos para conversar pela internet”, diz Renata.

Mãe de uma menina de 12 anos e de um menino de 5, a advogada Lucia Dangelo Mazará conversa, monitora e até restringe o uso deles à rede – somente a garota pode visitar redes sociais; para o menino, apenas os joguinhos estão liberados. “Tenho o acesso e todas as senhas. Quando estou fora de casa, eventualmente, entro nos sites para verificar com quem ela está conversando e qual o tipo de postagem”, comenta.

Foto: Alessandro Rosman/AAN

Alessandro Rosman/AAN

A advogada Lucia Dangelo Mazará procura conversar, monitorar e até restringir o uso dos filhos na rede

Fruto da orientação diária sobre os riscos da web, ficou combinado que o uso do computador para bate-papo e jogos pode ocorrer só no final do dia, depois de se cumprirem as atividades da escola e com a supervisão dos adultos. Giovanna, a filha, concorda com as recomendações e acredita que a internet não é perigosa, desde que se saiba usá-la e que cuidados sejam tomados. “Minha mãe e meu pai me ensinaram a evitar postar fotos e informações muito pessoais. Também não aceito pessoas que não conheço e só converso com amigos”, conta.

A empresária e designer gráfica Fabiana Pacola Ius também fica de olho no que sua filha, Nina Pacola Ius, de 10 anos, faz na rede social – ela até tem a senha de acesso da menina ao Facebook. “Tentamos nos precaver. Não que isso seja garantia, mas procuro ficar de olho semanalmente, entro e vejo a troca de mensagens, habilito as ferramentas de segurança e oriento-a sempre a não aceitar convites de pessoas que ela não conheça, mesmo que seja irmão, primo ou amigo da amiga da escola. Ainda seleciono os adultos que ela pode aceitar”, relata Fabiana.

“Pelo menos por enquanto ela e as amiguinhas não sabem apagar o histórico. Por enquanto...”. Aliás, refere-se a esse comportamento um dos dados que mais chamam a atenção na pesquisa. De acordo com a TIC Kids Online Brasil, entre as habilidades descritas por crianças e adolescentes no uso da internet, 50% dizem deletar os registros históricos dos sites visitados.

Mesmo com esses e outros cuidados, o Cetic.br considera baixa a percepção dos pais sobre os riscos da internet. De acordo com o levantamento do órgão, 71% deles e dos responsáveis creem que os filhos usam a rede de forma segura e 35% acreditam que as crianças e adolescentes são suficientemente capazes de lidar com situações que os incomodem na web.

 

Até no consultório

Internet e crianças/adolescentes andam tão ligados que até nas consultas da pediatra e hebiatra Elizete Andrade a primeira marca presença. Durante os encontros, o paciente tem a oportunidade de tirar dúvidas e falar de temas como drogas, sexualidade, nutrição e desenvolvimento. E também sobre o uso seguro da web. “Não podemos dizer que a rede é algo péssimo, porque não é. Ela é importantíssima e não conseguimos mais pensar no mundo sem ela. Além disso, hoje em dia, a internet participa da formação da personalidade do adolescente.”

 

Foto: Alessandro Rosman/AAN

Alessandro Rosman/AAN

Elizete Andrade, hebiatra: tempo de navegação limitado e muita conversa

 

Por esse motivo, a hebiatra acredita que não adianta proibir o acesso, mas sim colocar limites e explicar o porquê. Em tempo: hebiatria é a área de atuação da pediatria especializada na medicina do adolescente. “Os pais devem dizer ‘eu não quero que você encontre com alguém que conheceu na internet porque existem casos de pessoas que acabaram mortas ou estupradas’, por exemplo. Quando se explica, é mais fácil ter o retorno do adolescente”, aposta Elizete. “Dar o exemplo também é importante, pois os filhos crescem dessa forma”, reforça, defendendo que os responsáveis também adotem práticas de segurança na utilização da internet.

Tal comportamento é valioso porque, apesar de os adolescentes conhecerem os riscos, ficam mais vulneráveis diante de determinadas situações, como o fim de um namoro, a morte dos pais ou familiares próximos, mal desempenho escolar e bullying. “Toda vez que identifico um paciente que já tem fatores de risco, faço um trabalho não só com a internet, mas explico que deve haver cuidados, pois eles estão mais sensíveis, a atenção diminui. Infelizmente, há pessoas que querem se aproveitar disso para agir de má-fé. Daí a necessidade de orientarmos também os pais”, alerta Elizete. Para ela, aumentar a proteção em torno do adolescente é outra estratégia. Assim, quando ele vivenciar situações desconfortáveis, saberá que pode relatar o ocorrido a alguém de confiança, de preferência da família.

Os pais ainda podem auxiliar a identificar esses episódios de desconforto gerados pela rede, mesmo que seja uma tarefa difícil. “Em se tratando de relações humanas, nada é fácil e, na relação pais e filhos, é ainda mais complicado, porque a culpa anda colada ao amor. O principal sinal é a mudança de comportamento dos filhos, que podem apresentar irritação fora do normal, tristeza, dificuldade para dormir, desejo de não sair de casa ou arrumar desculpas para não ir à escola. Outro sinal é o aparecimento de sintomas físicos, como dor de cabeça e de estômago, dificuldade de evacuar etc”, relaciona a especialista.

 

Bullying

A hebiatra Elizete Andrade informa que há um processo até que o bullying provoque impactos na saúde do adolescente. “O bullying, geralmente, começa com o isolamento. Nessa hora, a vítima fica desesperada para se encaixar em outro grupo e a internet pode funcionar como ponto de fuga”, comenta. Ela explica que quem pratica as agressões que caracterizam o fenômeno só o faz se tiver plateia, por isso que é tão importante conscientizar aos que assistem para que não curtam, não compartilhem, não deem opinião. Caso contrário, ressalta a profissional, estão sendo coniventes.

Segundo Elizete, são necessários limites e muita conversa. “Nenhum pai tem 100% de controle sobre os filhos, ainda mais no caso da internet. Por conta disso, têm que deixar claro quais são os limites para utilização da internet e explicar, de acordo com a idade, os motivos”, diz. Ela recomenda desenvolver na família o hábito de cada um falar um pouco sobre si, seja no almoço ou no jantar, contando como foi o dia. “Com o tempo, isso acontece naturalmente e os próprios adolescentes acabam falando de si com pais e irmãos”, enfatiza.

Outra dica é coordenar o tempo de uso do computador. Ainda mais que a maioria dos adolescentes costuma usar o computador à noite, depois que os pais foram dormir, e varar a madrugada, o que atrapalha o rendimento escolar no dia seguinte. Vale lembrar que na adolescência ocorre o estirão de crescimento e o hábito de dormir tarde pode ser prejudicial – de acordo com Elizete, o hormônio do crescimento é liberado durante o sono profundo, e quem reduz suas horas de sono pode sofrer impactos no crescimento.

Dicas de Segurança

Não se exponha; não divulgue dados pessoais como endereço e telefone, seja seletivo com as pessoas que participarão da sua rede social e não aceite pessoas estranhas; habilite ferramentas de segurança e privacidade; tenha cuidado com o conteúdo que será postado; não curta e compartilhe situações que ofendam, discriminem ou agridam outras pessoas; pense sempre nas consequências e se poderá arcar com elas; lembre que o conteúdo disponibilizado na rede social poderá ser permanente, mesmo que a conta seja excluída, pois qualquer um pode imprimir as publicações ou guardar imagens e vídeos em um computador.