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Chegou o inverno
Antônio Contente é jornalista e escritor
2012/02/06Sim, chegou o Inverno amazônico, com razoável atraso. Como os bem informados sabem aqui no Brasil setentrional as quatro estações do ano se resumem a duas, uma em que chove mais, o Inverno; outra em que chove menos, o Verão. Pois agora entramos no período do mais. Então, aconchegado em minha franciscana choupana nesta ilha de onde ora escrevo, trafego com inumerável satisfação pelos molhados dias que tanto me fascinam.
Este é o tempo em que se as auroras nascem respingando, os pássaros do alvorecer não cantam, conferindo certa tristeza ao começo do dia; todavia, basta que alguns raios de sol risquem o céu num breve afastar de nuvens, o primeiro a berrar é o bem-te-vi, arauto a avisar seus parceiros que as águas podem voltar a qualquer momento. Porém que naquele instante as sabiás têm condições de cantar, bem como os ariscos curiós que preferem os lugares mais afastados da mata densa. E o tem-tem pipila, os periquitos de repente saem em revoada de seus esconderijos nas sumaumeiras, idem os papagaios e curicas que dormem nos buracos que são como mini-cavernas nos troncos seculares.
Nesses dias molhados quem tem bons ouvidos escuta o dialogar dos galhos. Que repassam de uns para os outros, através do farfalhar que as brisas permitem, o anúncio de que as águas copiosas propiciarão o melhor sazonar das chamadas “frutas do Inverno”. Este é o tempo dos cupus fartos, dos bacuris que armazenaram dos dias ensolarados o amarelo dourado da sua cor e em que os cachos das pupunheiras são coloridos na variedade das pencas que vão do vermelho ao verde, do amarelo ao bege. Já os assaizeiros, nesta época até produzem, mas, com o se trata de “fruta do Verão”, o sumo colhido não tem a cor do vinho tinto encorpado. Do mesmo jeito as bacabeiras; se não produzem frutos anêmicos, também não penduram entre suas palmas aqueles dos dias ensolarados que parecem captar o alegre ímpeto das claridades.
No Inverno amazônico, o tempo todo, o ar tem o cheiro bom da terra molhada, dos limos acumulados nos troncos, das folhas que retêm, na paciência do balançar, o macio que alimenta o aroma das flores. Em nenhuma outra época do ano os jasmins bogari exalam tanto perfume.
Na Estação das Águas, o anoitecer exibe austeridade sinfônica. A escuridão sem dúvida chega um pouco mais cedo, porém isso só os animais percebem, pois têm pressa em se recolher. As revoadas dos pássaros pernaltas que normalmente ao crepúsculo buscam, em bandos, os banhados da Ilha do Marajó, também não ocorrem se são mais fortes os pingos do céu. Somente os botos buscam, com renitente freqüência, a superfície da baía para respirar, e não raro saltam fora d’água em pulos espetaculares que talvez sejam parte da liturgia de namoro ou acasalamento.
Alguns moradores das inúmeras ilhas do delta ainda ornam seus pequenos barcos com velas, em geral azuis ou cor de ferrugem. Os ventos que sopram nos dias de Inverno são mais propícios para o navegar e é bom de ver, ao longe, os panos enfunados que me remetem a noção muito pessoal de argonautas em busca do que possa existir no final dos arco-íris.
Deitar à noite neste Inverno é dormir com a canção cadenciada e renitente que o tamborilar dos pingos inscrevem no pentagrama das telhas. E a água a cair dos beirais em que os limos ficam mais vivos, enriquece, ao bater no chão com quase fragor de cachoeira, a partitura que os trovões ao longe modulam para o fascinante balé das horas.
Hoje de manhã, para surpresa minha, acordei com o barulho das ondas da baía a quebrar com força na prainha em frente ao meu casebre. Como sei que nestes dias de vento forte as nuvens de chuva costumam ser levadas para o continente, saltei para o meio do quarto e abri a janela. Vi um suí (o passarinho azul) levando torcido graveto para a construção do ninho. E o sol, de fato, já salpicava a água. Vamos ter, percebi, em pleno Inverno uma linda e efêmera manhã de Verão. De fato elas ocorrem para que durante algumas horas os pássaros trabalhem, os insetos idem, e os frutos tenham sua dose necessária de calor. A manhã toda permaneci apenas olhando a trégua das chuvas para que melhor ande a outra face da vida. O que durou até depois do almoço. Com o primeiro trovão a anunciar que aqui, nesta estação, tudo se completa, milagrosamente, entre luz e sombras. Entre cores e preto e branco.
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