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  1. Sem-teto ignora PM e GM e impõe medo na Catedral


    Problema social com os moradores de rua em Campinas parece longe de ter fim

    28/01/2012 - 14h34 . Atualizada em 29/01/2012 - 07h32
    Jaqueline Harumi    
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    Sem-teto no entorno da Catedral
    (Foto: Janaína Maciel/AAN)

    O problema social com os moradores de rua em Campinas parece longe de ter fim e, no entorno da Catedral Metropolitana, no Centro da cidade, a questão crônica transformou-se em insegurança e preocupa religiosos, mesmo com uma base da Polícia Militar (PM) em frente, na Praça José Bonifácio, e o a Guarda Municipal (GM) a duas quadras dali. Um paroquiano que prefere não ser identificado conta que no último dia 8 de dezembro, na missa em homenagem à Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Campinas, foram furtadas bolsas e carteiras de vários integrantes do coral da Arquidiocese. Já no domingo retrasado, dia de entrega de cestas básicas (terceiro domingo do mês), houve agressão a um integrante da paróquia depois da última missa, das 19h, diante da recusa em entregar cestas aos moradores de rua. 

    'Na saída havia uma aglomeração de moradores de rua pedindo alimentos. Explicamos que já estavam destinados, mas um deles se alterou, partiu para agressão verbal e esmurrou o carro de um colega, chegando a quebrar o para-brisa do veículo' , conta o paroquiano que afirma não terem recebido ajuda da base da PM. 'Havia pelo menos três policiais e duas viaturas paradas, mas não fizeram nada. Só nos orientaram a registrar um boletim de ocorrência no Distrito Policial' , lembra. 

    A reportagem do Correio entrou em contato com o comando da PM responsável pela base. Eles afirmaram que desconhecem o fato e pediram que as vítimas façam uma queixa formal na sede do 8º Batalhão, no bairro Bonfim, sobre o caso. Após o procedimento eles farão uma investigação para apurar o que aconteceu e se houve mau atendimento prestados pelos policiais no local.
    O cônego Álvaro Augusto Ambiel, pároco da Catedral, avalia que a situação está incontrolável. 'Este problema é tão antigo quanto a humanidade, mas se agravou de maneira acentuada nos últimos tempos' , diz. Segundo ele, além de os desalojados fazerem suas necessidades fisiológicas e consumirem álcool e drogas nas laterais e escadarias do templo, muitas vezes, alterados ou embriagados, fazem arruaça dentro da igreja durante as celebrações. 'Eles montaram acampamento no entorno da Catedral. Os agentes sociais até os levam para o Samim (Serviço de Atendimento ao Migrante, Itinerante e Mendicante), mas surgem outros. A cada dia aparecem novos moradores de rua. São seres humanos que estão a Deus dará' , completa. 

    Policiais militares da base na praça da Catedral há cerca de 12 anos no local, afirmam com veemência que o número de moradores de rua no entorno cresce ano a ano e é bastante flutuante: tem pessoas que chegam a ficar quatro meses longe dali e acabam voltando. A Prefeitura estima que atualmente há 535 moradores de rua no município. A maior parte vive nas ruas da área central.
    Segundo a polícia, os problemas mais recorrentes são referentes a desentendimentos entre os próprios moradores de rua, seja por espaço ou por drogas. Outra queixa comum é da vizinhança dos prédios residenciais por conta do barulho, mas sobre furtos e roubos, os membros da PM preferiram não se pronunciar oficialmente. 

    Do outro lado
    Os motivos para continuar desalojado estão na ponta da língua. Para o baiano que chegou há quatro meses da cidade de Irecê, Ivanildo Ferreira dos Santos, 29 anos, morar na rua foi a alternativa que sobrou após a separação da companheira, que vive no Jardim São Marcos com sua filha de 4 anos. 'Trabalhei uns dias, mas acabou o serviço. É muito complicado morar no albergue porque o pessoal faz muita bagunça: é uma falta de respeito. Fiquei dois dias e vim para cá, onde o pessoal é amigo, gente boa: todos na mesma situação', explica ele que trabalhava como pedreiro na Bahia e hoje dorme ao pé da Catedral quando não chove e sob uma cobertura próxima ao Hospital Mário Gatti quando chove. Diz que mudaria de vida, mas se a renda permitisse. 'Se aparece bico, trabalho. Se eu tiver dinheiro, pago aluguel', resume. 

    Há aproximadamente dois meses Sidnei Gomes da Silva, 30 anos, natural do município de Cruzeiro do Oeste, no Paraná, e há 14 anos em Campinas, largou tudo para morar na rua. 'O dinheiro que eu ganhava não dava para o aluguel, que subiu. As pensões são caras também. Pedi a conta porque desanimei de trabalhar e não ter dinheiro nem pra morar', justifica. O entorno da Catedral para ele é um lar. 'Se alguém chegar aqui 3h da madrugada sem comer e alguém tiver marmita, a gente divide. O pessoal da Casa da Cidadania trata a gente muito bem, até melhor que mãe', exemplifica ele que por duas vezes desistiu do Samim. 'Tratam a gente muito bem, mas o que a gente precisa é de oportunidade. E se arranjo emprego em um lugar mais longe, não tem como eu ficar por lá, porque tem hora certa para entrar'. 

    Solução vaga
    Diante dos contrapontos, o cônego Álvaro ressalta que já houve pedido de providências sobre a questão em conversa com o prefeito cassado, Demétrio Vilagra, e com a secretária de Cidadania, Assistência e Inclusão Social, Darci da Silva, mas está na espera.
    A secretária Darci afirma que o poder público já vem atuando no local há algum tempo, antes mesmo de Demétrio Vilagra assumir a Prefeitura, e que o número de moradores reduziu. A ação mencionada como providência foi a adesão de mais uma ONG para a abordagem desse público. Segundo Darci, uma maior eficiência nesta redução só não é possível porque o local é ponto fixo de distribuição de alimentos de outros religiosos, o que motiva a transformá-lo em um abrigo permanente. 

    Sobre a atuação da Guarda Municipal, o secretário de Segurança Pública de Campinas, Wagner Gonçalves de Carvalho, ressalta que tem conhecimento da insegurança no local e está agindo contra isso. 'Intensificamos desde dezembro de 2010 o patrulhamento a pé, de bicicleta, moto e viatura para ajudar, mas sempre lembrando que a questão dos moradores de rua é antes de tudo social', esclarece. Para o secretário, prova do empenho em apliar a segurança é a contratação de novos guardas. 'Começamos com 60 na região central até meados de dezembro, quando foram para bases da periferia e outros 51 novos guardas vieram para a área central. Lembrando que a Catedral está no roteiro prioritário'.

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