Publicado 08/07/2019 - 16h31 - Atualizado 08/07/2019 - 16h31

Por AFP


O chefe da diplomacia dos Estados Unidos, Mike Pompeo, nomeou nesta segunda-feira (8) uma firme opositora do aborto para uma comissão responsável por analisar os direitos humanos na política externa do país, uma iniciativa que já gerou suspeitas.

Mary Ann Glendon, professora de Direito de Harvard e uma das líderes intelectuais do movimento contra o aborto, liderará a Comissão de Direitos Inalienáveis no Departamento de Estado.

O painel "revisará a pergunta mais básica. O que significa dizer ou afirmar que algo é, de fato, um direito humano?", questionou Pompeo, após citar o ícone anticomunista tcheco Vaclav Havel dizendo que "palavras como "direitos" podem ser usadas para o bem e para o mal".

Para o secretário de Estado americano, um cristão evangélico que costuma falar sobre sua fé, "as instituições internacionais projetadas e construídas para defender os direitos humanos se afastaram de sua missão original".

Pompeo lamentou que "mais de 70 anos depois da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ainda existem graves violações em todo o mundo, às vezes até em nome dos direitos humanos".

"Com isto em mente, é o momento certo para uma revisão informada do papel dos direitos humanos na política externa dos EUA", disse ele.

Nos Estados Unidos, grupos conservadores que apoiam o presidente Donald Trump questionam a defesa de questões como direitos reprodutivos das mulheres, de homossexuais e a igualdade de renda entre gêneros, exigindo, em vez disso, uma ênfase na "lei natural" de Deus.

A Anistia Internacional (AI) criticou a criação do painel, dizendo que os governos americanos, independentemente do partido no poder, apoiaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o documento das Nações Unidas adotado após a Segunda Guerra Mundial, que consagrou a liberdade individual.

"Essa politização dos direitos humanos pelo que parece ser uma tentativa de promover políticas de ódio contra mulheres e pessoas LGBTI é vergonhosa", disse Joanne Lin, da AI.

Mas o Family Research Council, uma ONG cristã que se opõe fortemente à aceitação da homossexualidade, aplaudiu o painel como "histórico".

"Outros grupos de interesse especial tentaram expandir a definição de "direito humano" para incluir virtualmente qualquer coisa, se tudo é um direito humano, então o termo começa a ter pouco significado", disse o presidente do grupo, Tony Perkins.

Não está claro como a nova comissão irá moldar a política externa de Trump. Desde que o presidente chegou ao poder, Washington usou a questão dos direitos humanos para condenar rivais como China, Irã ou Cuba, mas ignorou o tema em relação a aliados como o Egito e a Arábia Saudita.

O governo Trump também se retirou do Conselho de Direitos Humanos da ONU, alegando que era tendencioso contra Israel.

A direita religiosa em que os EUA lançou nos últimos meses uma grande ofensiva contra o direito ao aborto nos estados conservadores, esperando que a Suprema Corte reveja decisão histórica que legalizou o aborto nos Estados Unidos em 1973.

Glendon, que liderará a comissão de 10 membros que nomeou Pompeo, representou o Vaticano na conferência das Nações Unidas sobre as mulheres em Pequim, em 1995, onde a então primeira-dama americana, Hillary Clinton, anos depois secretária de Estado, fez um discurso histórico no qual declarou que "os direitos das mulheres são direitos humanos".

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